Meus jovens de Bayeux,
Escrevo-lhes como quem sopra uma lembrança no ouvido do tempo. Talvez vocês não me tenham visto passar com meu leão pelas ruas, talvez não conheçam o peso leve das fantasias nem o barulho manso que a imaginação faz quando anda em procissão. Ainda assim, escrevo-lhes porque cidades que esquecem seus sonhos acabam dormindo de olhos abertos.
Bayeux nunca foi apenas chão e parede. Foi sempre travessia. Antes de ser rua, foi rio. Antes de ser fábrica, foi mangue. Antes de ser pressa, foi demora boa. Vocês caminham hoje sobre o que muitos chamariam de passado, mas que eu prefiro chamar de raiz. E cidade sem raiz vira poeira.
Meu leão — esse de pano, de tinta e de espanto — não foi invenção para distrair criança. Foi recado. Recado de que não basta trabalhar: é preciso imaginar. Recado de que fábrica sem poesia vira prisão, e cidade sem sonho vira cansaço.
Quando eu colocava o leão na rua, não era para ensinar teatro. Era para lembrar dignidade. A criança que vê beleza aprende sem saber que aprende. O adulto que assiste também, mas disfarça.
Por isso, jovens, não aceitem uma vida estreita. Não se acomodem a uma Bayeux pequena se ela pode ser grande por dentro. A cidade pode perder fábricas, mas não pode perder encantamento. Pode mudar de forma, mas não de alma.
Não esperem que governos lhes entreguem poesia. Nunca entregaram. Poesia se conquista. Nas rodas, na música, na rua, no afeto, na teimosia de ser humano num mundo que insiste em ser máquina.
Sejam engenhosos como os mangues. Teimosos como o rio. Altivos como o leão que vocês não viram, mas que ainda caminha, invisível, dentro da memória de quem foi menino.
Cada um de vocês carrega um leão sem saber. Soltem-no.
E lembrem-se: cidades não adoecem de pobreza. Adoecem de esquecimento.
Com estima e permanência,
Major Otílio Ciraulo
(que nunca deixou Bayeux,
apenas mudou de forma)
Concebida por Palmarí H. de Lucena