Carta Apócrifa do Maestro Sivuca para o cordelista Flavio Mozartz

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Carta Apócrifa do Maestro Sivuca para o cordelista Flavio Mozartz

Meu caro Flavio Mozartz,

Escrevo-lhe estas linhas como quem puxa um fole de sanfona: abrindo o peito pra deixar sair o som que a alma guardou. Não sei se esta carta lhe chega pelas veredas de Itabaiana ou soprada pelo vento que corre nas margens do rio Paraíba, mas sei que ela vai cheia de verdade.

Ouvi dizer que andas jogando “tijoladas” — dessas que não ferem, mas levantam parede de poesia. E isso, meu amigo, é coisa das boas. Porque verso que nasce na terra quente de Itabaiana carrega mais que palavra: carrega história, poeira de estrada e voz de gente antiga.

Lembre-se dos seleiros, que com paciência moldam o couro, do mesmo jeito que o poeta molda o verso — firme, resistente e feito pra durar. E das meninas do Carrité — que não eram de bordado nem de pano — mas de presença viva; dessas que fazem história só por existir e ocupar seu lugar no mundo, ali perto da linha do trem já esquecido, onde não passam vagões nem passageiros, apenas transeuntes e histórias que se cruzam na poeira do caminho.

A poesia, Flavio, é como feira de Mangai em dia cheio: tem barulho, tem riso, tem disputa, mas no fim tudo vira encontro. E quem chega com verdade nunca sai de mãos vazias. E se quiseres um exemplo do riso que cutuca e da palavra que não pede licença, lembra de Zé da Luz — mestre dos versos matutos, daqueles que parecem tortos, mas acertam em cheio, como quem fala “errado” pra dizer o certo.

Zé da Luz não foi só um poeta: foi um guardião de um jeito brasileiro de existir. Sua poesia ajudou a formar o mosaico cultural do Brasil — esse país feito de muitas vozes, onde o saber popular tem o mesmo peso da palavra erudita. Ele mostrou que o cordel não é menor: é raiz. É memória impressa, é filosofia de feira, é riso que denuncia e consola ao mesmo tempo.

O cordel, como o que tu fazes, é uma das formas mais vivas dessa herança. Ele atravessa gerações, passa de mão em mão, e carrega dentro de si a história do povo — suas lutas, suas ironias, suas crenças e suas rebeldias. É literatura que anda, que fala alto, que não pede licença pra existir. É escola sem parede e livro sem dono.

Mas te digo mais: essa terra não aprendeu a baixar a cabeça. Desde o tempo do Quebra-Quilos, quando a medida vinha de cima sem explicação, o povo respondeu com desconfiança e coragem. Em Campina Grande e também em Itabaiana, não foi só revolta — foi um modo de dizer “assim não”. Não havia chefe nem discurso bonito: havia era cansaço, havia saturação, havia gente que já não aceitava imposição calada.

Essa tradição de desobediência corre no sangue da terra. E é dela que nasce o verso mais verdadeiro — aquele que não pede licença pra existir. O poeta, como tu, não obedece ao silêncio: ele responde, ele provoca, ele levanta.

Tu jogas teus tijolos como quem constrói casa pra o povo morar dentro da lembrança. E cada palavra tua vai ficando, como marco de quem entende o chão onde pisa.

Continue assim. Se o mundo apertar, faça como o rio Paraíba: contorne, siga, mas nunca deixe de correr. E quando a poesia pesar, lembre que peso bom é aquele que firma raiz.

Receba deste velho sanfoneiro — que já tocou em muita feira, já viu muito chão e já escutou muita história — um abraço forte, desses que abrem o peito como sanfona em festa.

Siga no compasso.

Assina (num repente imaginado),
Sivuca

Concebida por Palmarí H. de Lucena