Carta Apócrifa do Maestro José Siqueira aos Regentes e Filarmônicas do Interior

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Carta Apócrifa do Maestro José Siqueira aos Regentes e Filarmônicas do Interior

Caros regentes, mestres de banda e músicos das filarmônicas do interior,

Escrevo-lhes não do alto de um pódio solene, mas do lugar simples onde começou minha própria música: o convívio com as pequenas bandas das cidades do interior. Antes de reger orquestras em grandes capitais ou frequentar salas de estudo rigorosas, fui também um aprendiz entre instrumentos de sopro, ensaios improvisados e o entusiasmo das festas populares.

Foi nesse ambiente que aprendi uma lição que nunca me abandonou: a música não pertence apenas aos teatros ou às academias; ela nasce, sobretudo, na vida cotidiana das comunidades. Nas procissões, nas retretas de praça, nas comemorações cívicas, as bandas do interior fazem algo que nenhuma instituição pode substituir — aproximam a arte do coração do povo.

Meu primeiro mestre foi meu próprio pai, que conduzia a banda Cordão Encarnado, em Conceição, no Vale do Piancó. Foi ali, ainda menino, que compreendi que uma banda de cidade pequena pode ser uma grande escola. Nela se aprende disciplina sem dureza, convivência sem vaidade e respeito pela música como expressão coletiva.

Mais tarde a vida me levou a outras paisagens. Regi orquestras em diferentes países, conheci palcos célebres e trabalhei com músicos de muitas tradições. Fundamos orquestras, criamos instituições e lutamos para que o músico brasileiro tivesse reconhecimento e dignidade. Ainda assim, quanto mais o mundo se ampliava diante de mim, mais eu percebia a importância das origens.

As filarmônicas do interior são guardiãs silenciosas de uma herança cultural que atravessa gerações. Em suas sedes modestas, muitas vezes sustentadas apenas pelo esforço de mestres dedicados, nascem músicos, formam-se cidadãos e preserva-se uma tradição que pertence à própria história do Brasil.

Sei que o caminho de vocês nem sempre é fácil. Faltam instrumentos, recursos e, por vezes, o reconhecimento merecido. Mas também sei que a música possui uma resistência rara: ela sobrevive graças à dedicação daqueles que a cultivam com perseverança.

Recordo, com sincera gratidão, o apoio de espíritos generosos que compreenderam o valor da cultura, como José Américo de Almeida, que via na arte uma força formadora da sociedade. Homens assim sabiam que literatura, pensamento e música pertencem ao mesmo território da sensibilidade humana.

Por isso lhes digo, com confiança: continuem. Persistam. Ensinem aos jovens que aprender música é também aprender a ouvir o outro, a partilhar responsabilidades e a cultivar beleza onde muitas vezes só se espera silêncio.

Que cada cidade preserve sua filarmônica como um pequeno farol cultural. Que cada regente mantenha viva a curiosidade musical de seus alunos. E que cada instrumento afinado numa banda do interior continue lembrando ao Brasil que a música é, antes de tudo, um gesto de comunidade.

Se algum dia minhas partituras voltarem a soar entre músicos brasileiros, ficarei feliz em imaginá-las não apenas nas grandes salas de concerto, mas também nas varandas, nos coretos e nas sedes simples das bandas do interior — lugares onde a música sempre encontra seu caminho mais verdadeiro.

Recebam meu abraço fraterno e musical.

José de Lima Siqueira
Maestro e compositor brasileiro

Carta concebida por Palmarí H. de Lucena

José de Lima Siqueira (1907–1985) foi um compositor, maestro e educador musical brasileiro nascido em Conceição, no Vale do Piancó, Paraíba. Formado em composição e regência pelo antigo Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro, destacou-se como um dos grandes nomes da música erudita brasileira do século XX.