Prezado Itamar,
Escrevo-lhe não por simples cortesia entre escritores, mas porque, ao ler sua obra, reconheci nela inquietações que também me moveram. Não ignora o senhor que certas questões, quando verdadeiras, atravessam o tempo sem se resolver. Foi essa impressão que me ficou após a leitura de Torto Arado: a de que muito se mudou na aparência, mas pouco no essencial.
Quando escrevi A Bagaceira, procurei mostrar um sertão dominado pela seca, essa força que desfaz a vida sem pedir licença. O homem, diante dela, não escolhia partir — era levado. Via-se arrancado da terra, lançado à estrada, reduzido à condição de retirante. Mas sempre lhe digo: nunca me pareceu que a seca fosse toda a explicação. Havia algo mais fundo — um abandono antigo, uma ausência de amparo que tornava o sofrimento ainda maior.
Em sua obra, percebo que esse abandono não desapareceu. Apenas tomou outra forma. A terra existe, é fértil, responde ao trabalho — mas não pertence a quem a cultiva. O homem não foge mais; permanece. Mas permanece sem direito, preso a uma condição que não escolheu. Veja o senhor: antes, era expulso pela falta; agora, é mantido pela negação. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo.
Ao considerar as figuras que povoam nossas narrativas, creio que verá comigo que não se tratam apenas de personagens, mas de tipos que se repetem. O sertanejo que, em minha obra, é empurrado para a retirada pela seca e pela fome, reaparece em sua escrita sob outra forma — não mais expulso, mas retido, ainda assim privado do fruto do próprio trabalho. Mudou-se o destino aparente; permaneceu a limitação essencial.
E veja ainda, com atenção, a figura feminina. Aquela que em Soledade concentra a dor e a fragilidade diante das circunstâncias, reaparece em Bibiana e Belonísia, agora com maior firmeza e consciência. Nelas, o sofrimento não é apenas suportado — é compreendido. Ao redor dessas figuras, o senhor constrói também outras presenças que dão corpo à vida coletiva: Zeca Chapéu Grande, cuja autoridade nasce do respeito, e Severo, que já não aceita apenas sofrer, mas busca reagir. Há aí, como se percebe, um passo adiante.
Mas, apesar dessas mudanças, algo permanece. O poder continua presente. Em meu tempo, ele se mostrava mais claro, encarnado em figuras dominantes. Em sua obra, aparece de forma mais difusa, espalhado nas relações que se impõem sem rosto definido. Ainda assim, seu efeito é o mesmo. É ele que limita, que determina, que mantém cada um em seu lugar.
Também me parece — e creio que o senhor há de concordar — que a terra, em ambas as obras, decide o destino dos homens. Em minha escrita, ela faltava. Era seca, dura, incapaz de sustentar. Na sua, ela existe, mas se nega. É vínculo, é memória, é identidade — mas não se transforma em direito. Em um caso, o homem é afastado dela; no outro, é impedido de possuí-la. A diferença é grande na forma, mas pequena no resultado.
Há ainda um ponto que me chama a atenção. Em A Bagaceira, o homem sofre sem entender completamente as razões de seu sofrimento. Vive, resiste, mas não chega a nomear o que o oprime. Em Torto Arado, isso se modifica. Seus personagens começam a compreender. Percebem que sua condição não é natural, mas construída. E essa consciência muda a própria maneira de resistir.
Quanto ao que se costuma chamar de regional, permita-me dizer-lhe: nunca vi nisso limitação. Ao contrário. Foi olhando de perto o sertão que procurei falar de um problema maior. O mesmo faz o senhor. O campo que descreve não é apenas um lugar — é parte de uma realidade mais ampla, que ainda precisa ser compreendida.
Por isso lhe digo: não vejo ruptura entre nossas obras. Vejo continuidade. O que em mim foi denúncia, em sua escrita se torna explicação. O tempo não resolveu o problema — apenas o tornou mais visível.
Assim compreendo que a literatura, quando nasce do real, não se encerra em um tempo. Ela continua, muda de voz, passa de um autor a outro, mas conserva o mesmo encargo: dizer o que muitos preferem não dizer.
Receba, pois, minha consideração por sua obra, que dá seguimento a esse esforço.
Atenciosamente,
José Américo de Almeida
Concebido por Palmarí H. de Lucena