Carta Apócrifa do escritor Câmara Cascudo ao jornalista e raconteur Sergio Botelho

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Carta Apócrifa do escritor Câmara Cascudo ao jornalista e raconteur Sergio Botelho

Meu estimado Sérgio Botelho,

Escrevo-te destas paragens derradeiras da memória, onde o tempo já não se apressa como entre os vivos, mas se deposita, paciente, em camadas sucessivas sobre tudo aquilo que foi vivido e sentido. Daqui, onde subsisto apenas naquilo que registrei e no que pude recolher da experiência humana, chegam-me ainda ecos de espíritos atentos — e entre eles reconheço o teu.

Soube de teus livros dedicados à cidade de João Pessoa, esse organismo antigo e persistente, cuja vida não se esgota nas pedras nem nos traçados urbanos, mas se prolonga na lembrança dos que a viveram. Vejo que tens empreendido, com constância e devoção, uma verdadeira obra de escavação da memória, reunindo, em tuas páginas, não apenas os lugares, mas também os homens e mulheres que lhes deram sentido e duração.

Há, em tua trilogia — que percorre a cidade, a sente e a povoa de personagens — um gesto que me é profundamente familiar: o de compreender que nenhuma terra se explica sem sua gente, e que nenhuma história se sustenta sem o testemunho dos que a encarnaram. Ao dares relevo tanto às construções quanto às figuras humanas, compondo esse mosaico variado de tipos, vozes e destinos, restituis à cidade a sua dimensão mais autêntica: a de experiência vivida.

Vejo, ainda, que teu trabalho não se pretende erudito no sentido estreito, nem busca substituir os tratados dos historiadores. Antes, assume com dignidade o papel de mediação — esse ofício, tantas vezes subestimado, de tornar acessível ao público aquilo que, sem essa ponte, permaneceria restrito. E nisso resides um mérito inegável: fazes da memória um bem compartilhado, despertando no leitor o desejo de conhecer, reconhecer e, quem sabe, preservar.

Aprendi, ao longo da vida que me foi dada, que o saber do povo não se organiza em sistemas, mas se dispersa em fragmentos: numa história contada, num nome lembrado, num gesto repetido. Coube-me, então, recolher esses fragmentos, como quem junta cacos de um vaso antigo, na tentativa de recompor, ainda que imperfeitamente, a figura original. É esse mesmo gesto que percebo em tua obra, quando resgatas personagens diversos — do herói ao boêmio, do mestre ao tipo popular — e lhes restituis dignidade narrativa.

A cidade, meu caro, é um texto complexo, escrito a muitas mãos e ao longo de muitos tempos. Lê-la exige mais do que olhos: requer investigação, escuta e sensibilidade. Não basta enumerar ruas ou datas; é preciso compreender as relações, os afetos, as permanências invisíveis. Nesse sentido, teu trabalho ultrapassa o registro e se aproxima da interpretação — e interpretar é dar sentido ao vivido.

A crônica, que elegeste como instrumento, serve-te com propriedade. Nela, o instante se fixa sem perder a vida, e o cotidiano se eleva à condição de memória. Ao exercê-la com regularidade, reunindo teus escritos em livros, vais construindo não apenas um acervo, mas uma consciência urbana, um modo de ver e compreender a cidade.

Também eu, quando me debrucei sobre os mitos, os cantos e os costumes, jamais os considerei curiosidades menores. Via neles a expressão legítima de uma inteligência coletiva, silenciosa, porém duradoura. Tu, ao voltares teu olhar para João Pessoa, revelas essa mesma inteligência na vida urbana — nos tipos humanos, nos episódios esquecidos, nos detalhes que escapam ao olhar apressado.

Há, em tua escrita, um sabor de terra — não como ornamento, mas como substância. Sente-se o chão, o tempo, a gente. E isso é o que distingue o simples narrador do verdadeiro intérprete de sua região.

Se hoje já não caminho entre os homens, consola-me saber que outros seguem atentos a esse chamado antigo: o de guardar, na palavra, aquilo que o tempo deseja levar. Cada página tua é um gesto de resistência, uma recusa ao esquecimento, uma forma de permanência.

Persiste, pois, nesse ofício. Ele é discreto, mas necessário. E enquanto houver quem escreva com inteligência, sensibilidade e apego à terra, nenhuma cidade desaparecerá por completo — sobreviverá, ao menos, na memória que souberam construir dela.

Recebe um cordial abraço deste velho estudioso das coisas do povo, que agora vive apenas na lembrança — mas que nela continua vigilante,

Câmara Cascudo

Concebida por Palmarí H. de Lucena