Carta Apócrifa do Doutor Lauro Pires Xavier aos Senhores do Poder e do Progresso Devastador

Carta Apócrifa do Doutor Lauro Pires Xavier aos Senhores do Poder e do Progresso Devastador

Senhores,

Não me esperem de jaleco branco nem em auditório climatizado. Retorno agora, não como homem, mas como brisa abafada que tenta soprar entre as torres de concreto; como caule retorcido no espelho seco dos brejos que vocês esqueceram. Venho em nome das folhas que não puderam gritar.

Chamo-me Lauro Pires Xavier — se ainda resta memória nos vossos gabinetes. Fundador do Herbário da Paraíba, em 1938, quando estudar a natureza era um ato de reverência, não de especulação. Recolhi, classifiquei, preservei mais de quarenta mil amostras — não para decorar vitrines, mas para alertar: a vida tem nome, cheiro, textura e urgência.

Mas vocês, senhores do agora, confundem progresso com pavimento, e biodiversidade com entrave. Derrubam mata como quem varre a própria sombra. Erguem prédios em cima de brejos, sem saber que um brejo é uma oração úmida da terra. Matam nascentes com buldôzeres, como se a água pudesse ser fabricada em laboratório.

Políticos, que usam palavras como “sustentabilidade” apenas em época de eleição: calem-se. Ouçam a ausência dos pássaros. Empresários da devastação disfarçada de crescimento: escutem os silvos do calor que avança e a sede dos vossos próprios filhos.

A Zona da Mata não é zona franca. Nem zona morta. É relicário ancestral. É biblioteca escrita em folhas. Cada jequitibá derrubado é um capítulo rasgado da história da vida. Cada xiquexique esmagado é um poema que jamais será lido.

Vocês aplaudem o concreto e ridicularizam o cipó. Mas é o cipó que segura o barranco. É o mato que segura a enxurrada. É a humildade da folha que ensina o peso da responsabilidade.

Não escrevo para acusar — a natureza já faz isso por mim. Escrevo para lembrar: a civilização que despreza suas raízes cava a própria extinção com tratores de última geração.

Ainda é possível replantar o que foi arrancado. Mas não esperem pelas futuras gerações: elas talvez não tenham folhas nem sombra para descansar. Talvez não saibam o que é uma chuva limpa, nem que o canto de um sabiá já foi algo comum.

Ajoelhem-se. Sim, ajoelhem-se. Mas não no púlpito da vaidade — ajoelhem-se no chão quente que um dia foi fértil. Peçam perdão às samambaias, às cactáceas, aos liquens, aos brejos. Peçam humildemente, como quem implora para continuar existindo.

Se ainda lhes resta um traço de humanidade, ouçam esta carta escrita em clorofila e saudade.

Assinado,
Lauro Pires Xavier
(Em nome da vegetação silenciada, do tempo sem pressa e da ciência sem dono.)

Concebida por Palmarí H. de Lucena