Prezada Valéria Antunes,
Escrevo-lhe movido por uma sincera admiração pelo caminho que você vem trilhando no campo da joalheria contemporânea. Ao observar suas criações, percebo uma afinidade que atravessa gerações de designers: o desejo de libertar a joia de materiais e convenções tradicionais, abrindo espaço para novas possibilidades estéticas, conceituais e expressivas.
Ao longo de minha trajetória como designer, procurei constantemente questionar a ideia de que o valor de uma joia reside apenas em metais preciosos ou pedras raras. Desde meus primeiros trabalhos, explorei materiais industriais e cotidianos — como plástico, alumínio e outros elementos não convencionais — buscando demonstrar que o design tem o poder de transformar qualquer matéria em expressão artística. Para mim, a joia nunca foi apenas um objeto decorativo, mas também um meio de comunicação capaz de transmitir ideias, provocar reflexão e estabelecer diálogo com a sociedade.
Muitas de minhas peças nasceram da intenção de romper com os padrões tradicionais da joalheria, aproximando-a do território da arte contemporânea e do design experimental. Procurei trabalhar com formas essenciais, cores vibrantes e materiais inesperados, valorizando tanto o conceito quanto a estética do objeto. Essa postura também me levou a participar de iniciativas e movimentos que buscavam renovar o design, incentivando a liberdade criativa e a experimentação com novos materiais.
Nesse sentido, vejo em seu trabalho uma continuidade particularmente significativa dessa visão. Um dos aspectos mais marcantes de sua produção é o compromisso evidente com a sustentabilidade. Ao utilizar plástico reaproveitado como matéria-prima para seus colares e outras joias, você transforma resíduos que seriam descartados em objetos dotados de valor estético, simbólico e cultural. Esse gesto revela não apenas sensibilidade artística, mas também uma postura consciente diante dos desafios ambientais de nosso tempo.
O uso do plástico reciclado em suas peças ultrapassa uma escolha meramente estética; trata-se de uma decisão ética e responsável. Suas criações demonstram que materiais considerados comuns ou sem valor podem adquirir novos significados quando reinterpretados pelo olhar do design. Por meio de cores, formas e composições inventivas, o plástico descartado ressurge como colares e joias expressivas, leves e visualmente marcantes.
Admiro particularmente a maneira como suas peças preservam vitalidade, cor e movimento, mesmo quando nascem de materiais anteriormente vistos apenas como lixo. Essa transformação poética do cotidiano evidencia a capacidade do design de revelar novas possibilidades nos objetos mais simples. Ao mesmo tempo, suas obras convidam o público a refletir sobre consumo, reaproveitamento e responsabilidade ambiental.
Há também em sua prática um espírito investigativo que aproxima sua produção de um verdadeiro laboratório de design. A forma como você experimenta cortes, encaixes, sobreposições e combinações cromáticas demonstra uma pesquisa sensível das qualidades do material. Cada fragmento de plástico passa a ser explorado não apenas em sua condição original, mas em suas potencialidades de transformação, revelando novas texturas, volumes e ritmos visuais.
Assim, suas joias não apenas adornam o corpo: elas também narram histórias sobre matéria, tempo e transformação. Ao deslocar resíduos de seu destino descartável para o campo da criação artística, você amplia o debate sobre sustentabilidade e sugere novos caminhos para o design contemporâneo.
Creio que designers que trabalham com materiais não tradicionais compartilham um compromisso comum: expandir os limites da joalheria e questionar continuamente a relação entre valor, matéria e criatividade. Em suas obras, percebo esse compromisso de forma clara, aliado a uma consciência ecológica cada vez mais necessária em nosso tempo.
Receba, portanto, minha sincera admiração por sua contribuição ao design contemporâneo e pela maneira como você transforma resíduos em arte, beleza e reflexão.
Com estima,
Gijs Bakker
Concebida por Palmarí H. de Lucena