Carta apócrifa do Barão do Rio Branco aos Senhores Prefeitos

Carta apócrifa do Barão do Rio Branco aos Senhores Prefeitos

Concebida por Palmarí H. de Lucena

Aos Senhores Prefeitos do Brasil,

Permitam-me, como servidor da memória e do espírito da diplomacia brasileira, manifestar-me em caráter epistolar, motivado não por vaidade retrospectiva, mas pela perplexidade que me assola diante dos fatos recentes.

Sou Francisco José da Silva Paranhos, que o tempo consagrou como Barão do Rio Branco — título não de nobreza pessoal, mas de compromisso permanente com o interesse nacional, com a sobriedade institucional e com a prudência que deve guiar todo agente público em sua atuação internacional.

Com pesar e preocupação, acompanhei o deslocamento de Vossas Excelências ao Estado de Israel, em momento crítico para aquela região. Viagem realizada sob o rótulo de missão técnica e institucional, mas envolta em circunstâncias que, francamente, destoam dos cânones de oportunidade, moderação e responsabilidade com os quais construímos, ao longo de décadas, a reputação internacional do Brasil.

A história da diplomacia brasileira — que em minha época consolidou fronteiras pela palavra e pela razão, jamais pela aventura — ensina que não se ingressa em território conflagrado sem justo motivo de Estado e sem o amparo explícito do Ministério das Relações Exteriores. A presença de autoridades municipais brasileiras em um cenário de conflito ativo, sem consulta nem alinhamento com nossa chancelaria, é um gesto que, por mais bem-intencionado que pareça, compromete o equilíbrio e a neutralidade da política externa nacional.

Intercâmbios técnicos são valiosos — desde que prudentes, transparentes e adequadamente justificados. No caso que ora se observa, pairam dúvidas legítimas: quem financiou a missão? Quais os reais objetivos? Houve participação de entes privados com interesses comerciais? Recorrer-se-á, futuramente, ao argumento da viagem para justificar inexigibilidades contratuais com fornecedores estrangeiros? E, sobretudo: que retorno concreto, além de fotografias em abrigos blindados, foi ofertado à população que os senhores representam?

Ao lado da prudência, exige-se transparência. E da transparência, nasce a legitimidade. Não há glória no improviso nem virtude no risco desnecessário. A administração pública — municipal ou federal — deve inspirar-se no interesse coletivo, jamais no afã de prestígio individual ou conveniência eleitoreira.

A diplomacia não se faz ao sabor da ocasião, mas à luz da Constituição e dos princípios que regem nossa atuação soberana no concerto das nações. Ao omitir-se de consultar o Itamaraty, os senhores abriram mão de um pilar da institucionalidade republicana.

Exorto, pois, com respeito e espírito construtivo, que se revejam os critérios que norteiam futuras missões internacionais. Que se retorne à trilha da sobriedade, da cooperação responsável e da devida articulação federativa. O Brasil que projetei para o mundo não se encurrala em bunkers — edifica pontes com equilíbrio, honra e discernimento.

Respeitosamente,
Francisco José da Silva Paranhos
Barão do Rio Branco
Ministro das Relações Exteriores do Brasil (1902–1912)