Carta apócrifa de Zé da Luz ao moço e à moça que querem viver de verso

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Carta apócrifa de Zé da Luz ao moço e à moça que querem viver de verso

Meus fios de sonho e filhas da rima,

Escrevo dessas estradas invisíveis
onde o tempo descansa a memória
e a saudade vira passarinho
cantando no ombro da lembrança.

Não pensem que o cordel é coisa velha.
Velha é a noite quando perde estrela.
O verso nasce todo dia
quando a alma acorda cedo.

O Brasil que eu cantei ainda mora aí:
no cheiro do café quente,
no assobio da panela no fogo,
na criança inventando universos
com duas pedrinhas e quase nada.

Não mintam no verso, não.
A mentira pesa mais que o erro.
Errem a sílaba, mas não o sentido.
O povo perdoa tropeço de palavra,
mas não perdoa falta de verdade.

Façam o riso caminhar de mãos dadas
com o pensamento.
Rir por rir é vento que passa.
Rir com verdade é chuva fina
que molha até o chão mais duro.

Não se enfeitem demais.
Poesia não gosta de gravata:
ela anda descalça
e entra na casa da gente pelo quintal.

Se o sucesso bater palma, escutem.
Mas não troquem de roupa por causa dele.
Se a crítica vier de cara fechada,
ofereçam uma cadeira:
às vezes ela só quer sentar.

Cantem a cidade e o mato,
o barulho e o silêncio,
a máquina e o cavalo,
o ontem e o agora dormindo no mesmo canto.

O cordel é bicho teimoso.
Não morre fácil.
E quando parecer cansado,
é cochilo curto:
logo acorda querendo mundo.

Escrevam, mesmo quando ninguém lê,
porque alguém, em algum tempo,
vai precisar exatamente desse verso.

E poeta que não desiste
vira estrada.

Assina, do lado de cá da saudade,
Zé da Luz

Concebida por Palmarí H. de Lucena