Aos senhores que chegam com mapas sem alma
e partem com promessas sem raiz,
Permitam que eu lhes escreva de um lugar onde o tempo não vende ingressos
e as cidades ainda não têm dono.
Vejo-os pisarem Cabaceiras como quem pisa num palco montado às pressas,
sem perceber que sob seus sapatos há mais memória que calçada
e mais silêncio que discurso.
Vocês chamam isso de “destino”.
Eu chamo de destino escrito à mão.
Falam em turismo como quem fala em colheita,
mas não conhecem a semente.
Querem colher o sol sem aprender o ofício da sombra,
vender a paisagem sem ouvir o que a pedra diz ao anoitecer.
Pensam que Roliúde foi delírio,
que alguém acordou um dia e decidiu inventar estrelas no chão.
Não foi delírio.
Foi sobrevivência transformada em linguagem.
A seca ensinou esta cidade a falar baixo e durar.
A caatinga ensinou-lhe o desenho da paciência.
As casas brancas aprenderam a refletir o sol
como quem devolve ao céu o que o céu lhes nega.
Não confundam feira com festa,
nem multidão com encontro.
Aqui, o cinema não é maquiagem:
é espelho.
O povo não atua.
Resiste em cena.
E vocês chegam com suas planilhas como quem chega com chuva falsa,
querendo regar a terra com números
e o espírito com slogans.
Eu lhes digo:
não calcem esta cidade com sapatos de vitrine.
Não a perfumem com verniz estrangeiro.
Não a maquiem até perder o rosto.
Cabaceiras não tem figurino.
Tem pele.
Não lhe tragam monumentos prontos.
Tragam ouvido.
Não lhe tragam verbas sem alma.
Tragam tempo.
Porque esta cidade não quer ser visitada —
quer ser lida.
Não quer ser fotografada —
quer ser sentida.
Não quer ser vendida —
quer ser narrada.
Se vierem apenas fazer lucro, passem reto:
há desertos mais dóceis.
Mas se vierem com os bolsos vazios de arrogância
e as mãos abertas de escuta,
entrem.
A casa é simples.
O silêncio é fundo.
A história serve-se quente.
E eu, que escrevi esta cidade como quem escreve um corpo amado,
peço apenas isto:
não façam de Cabaceiras um cartaz.
Façam dela um verso longo —
daqueles que não cabem em moldura
e resistem ao tempo.
Assinado na poeira e na luz,
Wills Leal
(de onde as cidades continuam sonhando
quando os homens dormem)
Concebida por Palmarí H. de Lucena