Carta apócrifa de Umberto Eco ao escritor e filólogo paraibano Evandro Dantas da Nóbrega

Imagem concebida por IA
Carta apócrifa de Umberto Eco ao escritor e filólogo paraibano Evandro Dantas da Nóbrega

Caríssimo confrade,

Escrevo-lhe movido por aquela curiosidade que sempre acompanha aqueles que vivem entre livros, arquivos e bibliotecas — esses lugares onde o tempo se deposita como poeira luminosa sobre as páginas e onde cada volume pode tornar-se o início de uma investigação inesperada. Ainda que nos separem geografias e tradições culturais distintas, percebo que nos aproximam certas afinidades intelectuais: o gosto pela investigação histórica, a paixão pelas palavras e, não menos importante, o fascínio pelas línguas que as abrigam.

Sempre me interessou a ideia de que cada língua é uma maneira particular de organizar o mundo. Em meus estudos sobre semiótica procurei demonstrar que os homens habitam, antes de tudo, um universo de signos. Não lidamos diretamente com a realidade, mas com interpretações dela — textos, símbolos, narrativas e sistemas de significação. Cada língua, portanto, não apenas nomeia o mundo: ela o interpreta.

Por essa razão observo com especial simpatia o seu interesse pelas línguas e pela erudição filológica. A poliglossia, longe de ser mero acúmulo de vocabulários, constitui uma forma ampliada de consciência cultural. Quem percorre vários idiomas aprende que cada língua é também uma biblioteca — uma arquitetura de conceitos, metáforas e tradições que transporta séculos de pensamento. O estudioso que se dedica a várias línguas passa, portanto, a habitar simultaneamente diversas civilizações.

Nesse sentido, a sua curiosidade linguística lembra-me que a verdadeira erudição não consiste apenas em acumular informações, mas em estabelecer pontes entre culturas. Cada idioma dominado abre uma nova porta de acesso ao vasto edifício da memória humana.

Seu empenho em registrar personagens, instituições e episódios da história da Paraíba revela também uma compreensão essencial: nenhuma cultura se preserva sem memória, e nenhuma memória se transmite sem a mediação das palavras — e, naturalmente, das línguas que lhes dão forma. O historiador e o ensaísta tornam-se, assim, guardiões de signos e narrativas que impedem o esquecimento de apagar as marcas do passado.

Se em alguns de meus romances procurei explorar os labirintos do conhecimento — bibliotecas, manuscritos antigos e enigmas intelectuais — foi justamente porque sempre suspeitei que as bibliotecas são mais do que depósitos de livros: são máquinas de interpretação. Em certa ocasião imaginei uma biblioteca medieval tão complexa que seus corredores confundiam monges e investigadores, e onde a busca por um livro podia transformar-se em uma verdadeira investigação filosófica. Não era apenas um cenário literário, mas uma metáfora do próprio conhecimento humano: um labirinto de textos que se comentam, se contradiz e se reinterpreta sem cessar.

O seu trabalho, por sua vez, parece iluminar outro tipo de labirinto — o da memória cultural de um povo. Ao registrar vidas, instituições e episódios históricos, o senhor desenha o mapa de uma tradição que poderia facilmente perder-se no silêncio dos arquivos. Em ambos os casos, contudo, a tarefa é semelhante: interpretar os vestígios que a humanidade deixa registrados nas palavras, nas línguas e nos documentos.

Talvez por isso todo estudioso descubra, com o tempo, que vive simultaneamente em dois lugares: na realidade concreta de sua terra e na vasta república invisível dos livros. Assim, enquanto o senhor preserva a memória cultural da Paraíba, participa também dessa longa conversa entre autores de épocas e lugares diferentes — uma conversa que atravessa séculos e continua a ecoar nas bibliotecas do mundo.

Receba, portanto, a saudação deste confrade das letras, convencido de que cada documento preservado, cada língua estudada e cada história narrada contribuem para manter vivo o grande diálogo da cultura humana.

Com estima intelectual,

Umberto Eco
(em exercício imaginário de correspondência)

Concebida por Palmarí H. de Lucena