Aos que ainda creem que o impossível pode ser apenas o improvável com roupa de domingo,
Escrevo-vos com os ouvidos molhados de assombro e o peito aceso por um som que não cabe em partituras. Era noite — ou era eternidade? — quando vi erguer-se diante de mim o mais improvável dos espetáculos: os Três Tenores da Eternidade, juntos, como astros convocados por uma constelação nordestina.
De um lado, Luciano Pavarotti, com sua batina de gala e garganta feita de clarins celestes. Do outro, José Bezerra Filho, com os pés firmes no chão de Pombal e a voz arrastando montanhas como quem arrasta bois de barro. E ao centro, entre o trovão e o relâmpago, Oliveira de Panelas, em silêncio de faca, esperando sua deixa como quem espera o galo da madrugada.
Atrás deles, Sivuca. Não um homem, mas um milagre de fole e branca cabeleira. Da sanfona brotava o lamento dos Flagelados, de Joaquim Pereira, misturado à ternura da Asa Branca e ao mistério do Réquiem de Verdi. Era a orquestra dos que perderam tudo, menos o canto.
Então o palco se fez sertão. E o sertão, ó irmãos, virou ópera.
Pavarotti entoou Nessun Dorma, mas quem dorme diante da seca? José Bezerra, com sua voz de pedra quente, respondeu em martelo agalopado:
“Ninguém dorme onde há miséria,
Pois o sono tem patrão.
Só adormece quem tem teto,
Quem tem pão e proteção.”
O público calou. E Oliveira, relâmpago da palavra, cortou o ar com um galope:
“No Scala, canta-se Verdi,
Aqui, canta-se o feijão.
Mas a fome tem seus tenores
Na feira e no caminhão.”
Foi quando Pavarotti baixou os olhos. E, em italiano sofrido, confessou:
“Il dolore non ha lingua. Solo voce.”
(A dor não tem idioma. Só voz.)
E os três se abraçaram como rios que se encontram depois da seca. Juntos, cantaram uma ária sertaneja, feita de toada, latim e improviso:
“Cantem os que têm coragem
De nascer sem proteção.
Que a música seja abrigo
Onde falha a redenção.”
A plateia era formada por ex-vaqueiros, antigos profetas, lavadeiras invisíveis e crianças que ainda acreditam em milagre. E todos, em uníssono, aplaudiram não com as mãos, mas com o peito.
Quando tudo se apagou, vi no fundo do palco uma criança acendendo uma lamparina. Não falou palavra — apenas mostrou um velho folheto de cordel com a capa rasgada. Nele se lia:
“Enquanto houver voz no mundo,
Haverá luz sobre o chão.”
E assim encerro esta carta, certo de que ali, naquela noite que não tem data, vi a arte ajoelhar-se diante do verbo e a eternidade vestir gibão.
Comovidamente,
Um escutador de estrelas, de trovadores e de eternos tenores.
Concebida por Palmarí H. de Lucena, que viu a música ajoelhar-se diante do verbo