Carta Apócrifa de Tristão de Athayde à escritora e poetisa Marília Carneiro Arnaud

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Carta Apócrifa de Tristão de Athayde à escritora e poetisa Marília Carneiro Arnaud

Minha cara Marília,

quanto mais detenho meu olhar sobre sua escrita, mais me vejo impelido a revisitar não apenas minhas ideias sobre literatura, mas a própria função que sempre atribuí ao ato de escrever: instaurar um campo de tensão entre o visível e o invisível, entre o que se diz e o que, irredutível, permanece.

Em minha trajetória, como é de seu conhecimento, procurei sustentar uma concepção de literatura que não se esgota na imanência do texto. Sempre me pareceu que a obra literária, quando fiel à sua vocação mais alta, se abre a uma dimensão que a transcende — não como fuga do mundo, mas como aprofundamento dele. Daí meu interesse constante pela articulação entre estética, ética e espiritualidade, instâncias que, a meu ver, não podem ser dissociadas sem empobrecer a experiência humana.

É nesse ponto que sua escrita, embora situada em outro horizonte histórico e sensível, me interpela de modo particular. Se, em meus ensaios, busquei ordenar o pensamento em direção a um princípio de sentido — um eixo capaz de orientar a experiência —, em sua obra encontro o gesto de quem permanece no interior da fratura, recusando resolvê-la prematuramente.

Se me vali, por vezes, de categorias que aspiravam a alguma forma de síntese, ainda que provisória, percebo que sua literatura se constrói justamente a partir da suspensão dessa síntese. Seus textos não ignoram o desejo de sentido — ao contrário, são por ele atravessados —, mas reconhecem que, no mundo contemporâneo, tal sentido já não se oferece como evidência, talvez nem mesmo como possibilidade plenamente articulável.

Há, portanto, em sua escrita, uma ética do não fechamento.

Essa ética se manifesta, antes de tudo, na forma. A fragmentação que percorre seus textos não é recurso gratuito, mas expressão de uma consciência que já não se permite a ilusão da totalidade. Lacunas, silêncios e interrupções — aquilo que outrora poderia parecer falha — adquirem estatuto de linguagem. O não dito deixa de ser ausência para tornar-se presença mais sutil e exigente.

Permita-me observar que, nesse aspecto, sua escrita realiza, por vias distintas, algo que sempre busquei afirmar: a necessidade de uma disciplina interior. Em mim, essa disciplina traduziu-se frequentemente na tentativa de clarificar, nomear, estabelecer nexos. Em você, ela se revela na contenção, na recusa do excesso, na escolha rigorosa do que pode — e do que deve permanecer — em silêncio.

Mas é talvez na maneira como seus textos se relacionam com o cotidiano que nossa interlocução se torna mais fecunda. Sempre defendi que é na vida concreta, nos gestos mais simples, que se inscrevem as possibilidades mais profundas de compreensão. Em sua obra, contudo, esse cotidiano não se eleva por uma transcendência explícita, mas por uma intensificação da percepção.

O que, à primeira vista, pareceria banal, em seus textos se densifica: um gesto mínimo, uma palavra interrompida, um olhar que vacila — tudo passa a carregar uma espessura emocional que dispensa explicitação.

Se, em mim, a transcendência se insinuava como horizonte, em você ela se recolhe à imanência, como se o próprio real, em sua opacidade, fosse o único lugar possível de revelação.

Não vejo nisso ruptura, mas transformação da sensibilidade.

A literatura não permanece idêntica a si mesma; refaz-se à medida que o homem se transforma — ou se perde. Sua escrita parece testemunhar um tempo em que o sentido já não se oferece como luz, mas como busca — e, por vezes, como ausência.

Há ainda um aspecto que me parece decisivo: a relação com o outro.

Sempre sustentei que a literatura é, em sua essência, uma forma de comunicação — não como mera transmissão, mas como abertura ao outro enquanto mistério. Em sua obra, esse outro não se apresenta plenamente; surge fragmentado, opaco, por vezes inacessível. As relações humanas são marcadas por desencontros, por falhas de linguagem, por uma proximidade que não se cumpre inteiramente.

Mas talvez resida aí sua verdade mais profunda.

O outro, em sua alteridade radical, nunca se deixa possuir. E sua escrita, ao recusar simplificá-lo, preserva essa alteridade — ainda que ao preço de uma solidão silenciosa.

Permita-me, por fim, retornar a uma inquietação que sempre me acompanhou: a questão do sentido.

Se minha obra, em muitos momentos, se orientou pela busca de um fundamento — ainda que jamais plenamente alcançado —, percebo que sua literatura opera sob outro regime: não o da fundação, mas o da exposição.

Seus textos não asseguram o sentido; suspendem-no.

E talvez, minha cara, essa seja uma das formas mais honestas de escrita em nosso tempo.

Há uma dignidade particular em não resolver aquilo que, por sua natureza, resiste à resolução.

Receba estas palavras como reconhecimento atento: em sua obra, vejo não apenas continuidade com inquietações que me foram caras, mas também um deslocamento necessário — uma resposta, ainda que silenciosa, às condições de um mundo que já não é o mesmo.

Com estima e atenção renovadas,

Tristão de Athayde

Concebida por Palmarí H. de Lucena