Carta Apócrifa de Tarcísio Burity a Jovens Estudantes de Música das Comunidades Populares

Carta Apócrifa de Tarcísio Burity a Jovens Estudantes de Música das Comunidades Populares

Meus jovens amigos das vielas, becos, morros e ruas onde a vida pulsa com força,

Escrevo-lhes de um território onde a memória repousa serena e o tempo deixa de correr para, enfim, permitir a reflexão. Nada me anima mais do que saber que, apesar das dificuldades que cercam o dia a dia de vocês, escolheram a música como caminho. Quem abraça a música — essa arte que exige disciplina, escuta e coragem — já decidiu, ainda que silenciosamente, que não se conformará com um destino pequeno.

Vivi numa época em que a Paraíba parecia condenada à discrição no cenário cultural. Ainda assim, sempre acreditei que a cultura é parte essencial da estrutura do Estado, não mero enfeite. Essa convicção me guiou quando idealizei o Espaço Cultural José Lins do Rego e lutei para que bibliotecas, salas de concerto e centros de formação fossem erguidos como lugares onde a arte pudesse respirar e florescer. Nada disso nasceu de luxo, mas de fé — fé no jovem que transforma pouco em muito, como vocês fazem todos os dias.

Vocês, que crescem em comunidades onde o silêncio tantas vezes é imposto pela violência ou pela falta de oportunidades, sabem que a música não é adorno: é sobrevivência. É como riscar um fósforo numa noite sem luz. Cada vez que o arco vibra, que o sopro encontra o metal, que a percussão desperta ritmos antigos, vocês abrem uma fenda luminosa no destino — uma forma mansa, porém poderosa, de resistir ao que tenta reduzir a vida.

Quando criei a FUNESC e apoiei a Orquestra Sinfônica da Paraíba, imaginava jovens como vocês ocupando esses espaços: entrando pela porta principal, afinando instrumentos no palco, reconhecendo-se parte da grande linhagem humana da beleza. A música nunca pertenceu às elites. Ela pertence a quem tem sensibilidade, disciplina e fome de mundo. E isso, meus jovens, vocês têm de sobra.

Não se intimidem diante da imponência dos teatros. Eles foram pensados para acolher vocês. Não temam as partituras densas; elas também nasceram de mãos inseguras. E jamais permitam que o CEP onde vocês moram determine o alcance dos seus sonhos. Aprendi, ao longo da vida, que o talento raramente nasce nos gabinetes — nasce nos lugares onde a luta é cotidiana.

A cada escala repetida sob o calor da tarde, a cada ensaio interrompido por sirenes ou motos, a cada instrumento remendado e dividido entre vários colegas, vocês constroem algo que governo nenhum consegue erguer sozinho: a decisão íntima de existir pela arte.

Permitam-me dividir uma imagem que sempre me acompanhou enquanto eu pensava a política cultural do Estado: eu via a cultura como uma ponte. Uma ponte entre o jovem e o futuro, entre a precariedade e a realização, entre o que nos falta e aquilo que ousamos sonhar. Hoje, olhando para vocês, compreendo: são vocês que atravessam essa ponte — e, ao fazê-lo, lhe dão sentido.

Não desistam. A música salva — não como metáfora, mas como gesto real, capaz de devolver autoestima, reorganizar o mundo e abrir portas onde antes havia apenas muros. Cada nota que vocês tocam é um ato de desobediência ao desânimo. Cada ensaio é um voto silencioso a favor de si mesmos. Cada apresentação, por mais simples que seja, é uma afirmação de dignidade.

Se um dia estiverem no palco do Espaço Cultural, ergam os olhos. Aquele teto foi desenhado para amplificar não apenas o som, mas a humanidade. E, quando ouvirem a Orquestra Sinfônica afinando, lembrem-se: ninguém ali nasceu pronto. Cada músico teve medos, tropeços, dúvidas. Vocês também terão — e isso é parte da beleza.

Sigam firmes. Sejam pacientes, rigorosos e alegres. Cultivem a disciplina que a música exige, mas também a alegria que ela oferece. E nunca esqueçam: é possível criar beleza mesmo cercado de feiúra; é possível compor harmonia mesmo em territórios marcados por ruídos; é possível ascender mesmo quando tudo insiste em empurrar para baixo.

Recebam meu afeto, minha admiração e minha profunda confiança no futuro que vocês carregam. Continuem afinando a vida, nota por nota. A Paraíba — e o mundo — precisam ouvir o som que brota das mãos e das almas de vocês.

Com esperança e respeito,
Tarcísio de Miranda Burity

Concebida por Palmarí H. de Lucena