Carta Apócrifa de Sua Santidade o Dalai Lama aos Descrentes

Carta Apócrifa de Sua Santidade o Dalai Lama aos Descrentes

Filhos e filhas do tempo,

Escrevo-vos não de um trono, mas da simplicidade de uma almofada onde me sento todos os dias a observar o silêncio. Daqui, contemplo a dança do mundo com olhos que já aprenderam a esperar. O que vejo não me assusta, mas me convida à compaixão.

Vejo-vos correr, muitas vezes sem rumo, atrás de sentimentos que julgais eternos. Quando a alegria vos visita, agarrais com força. Quando a dor se insinua, quereis expulsá-la. Mas ambos são apenas hóspedes — e nenhum deles veio para ficar.

O sofrimento verdadeiro não nasce da tristeza nem da dor passageira. Ele brota da sede por controle, da ilusão de que é possível segurar o tempo com as mãos. Como um punhado de areia, quanto mais tentais apertá-lo, mais ele escapa.

A mente, quando quer reter o prazer, já está sofrendo com o medo de perdê-lo. E o medo — esse velho disfarce do apego — corrói até os momentos mais belos.

A prática da meditação me ensinou a olhar as emoções como se olha o mar: ondas vêm, ondas vão. Umas suaves como o riso de uma criança; outras amargas como uma despedida. Mas todas passam.

Não vos peço que renunciem ao sentir. O sentir é o que vos torna humanos. Peço apenas que não vos confundais com o que sentis. Alegrias e tristezas são como nuvens no céu — movem-se, dissolvem-se, retornam. Mas o céu permanece.

A serenidade não é frieza. É ternura em paz com a mudança. É olhar a impermanência não como ameaça, mas como parte do milagre.

Quando compreenderdes isso, não mais sereis escravos do desejo. Caminhareis leves como folhas ao vento, com olhos abertos para o instante presente.

Sede bons uns com os outros. Perdoai sem demora. Há mais cura num sorriso sincero do que em mil palavras de julgamento. E, às vezes, é no silêncio que se ouve o essencial.

A paz não é um destino. É um modo de olhar.

Com compaixão que não se altera,
Tenzin Gyatso
(Dalai Lama)

Concebida por Palmarí H. de Lucena, inspirada em ensinamentos budistas e na figura pública do Dalai Lama.