Carta Apócrifa de Sigríður Tómasdóttir, a mulher que salvou a cachoeira de Gullfoss, na Islândia, aos defensores da Orla Marítima da Paraíba

Carta Apócrifa de Sigríður Tómasdóttir, a mulher que salvou a cachoeira de Gullfoss, na Islândia, aos defensores da Orla Marítima da Paraíba

Àqueles que se levantam em defesa do encontro entre a terra e o mar,

Falo-vos desde a memória de uma luta travada junto às águas frias do norte, onde um dia tentaram transformar uma cachoeira viva em mercadoria. Chamavam de progresso aquilo que, no fundo, era a tentativa de aprisionar a força da natureza e convertê-la em lucro. Mas a água, quando livre, não aceita donos — e foi por isso que resisti.

Hoje, ao olhar para vossas praias e falésias, reconheço o mesmo conflito. Mudam os cenários, mudam as línguas, mas permanece a mesma lógica: transformar o comum em propriedade, o vivo em produto, o horizonte em negócio.

Dizem que o turismo traz desenvolvimento. Mas que desenvolvimento é esse que exige o desmatamento das encostas, a destruição das falésias e o apagamento das comunidades? Que futuro se constrói quando a vegetação é arrancada e a terra, desprotegida, começa a ceder pouco a pouco, como um aviso silencioso de que algo está profundamente errado?

Vejo também que não é apenas a força bruta que ameaça vossas terras, mas acordos silenciosos, alianças espúrias entre interesses econômicos e políticos. São decisões tomadas longe do olhar público, onde o valor da terra supera o valor da vida, e onde o que é coletivo se torna moeda de troca. Nessas alianças, a floresta vira obstáculo, a falésia vira terreno, e o povo vira impedimento.

O desmatamento não acontece por acaso — ele é autorizado, incentivado, muitas vezes planejado. Cada árvore derrubada carrega a assinatura invisível de quem lucra com sua queda. E assim, pouco a pouco, vão desmontando não apenas a paisagem, mas as condições de existência de todos que dela dependem.

As falésias não são apenas paisagem — são memória geológica, são proteção natural contra o avanço do mar, são morada de vidas visíveis e invisíveis. Quando se corta sua vegetação, quando se rasga sua estrutura para abrir espaço ao lucro imediato, não se está apenas modificando o território: está-se rompendo um equilíbrio que levou séculos para se formar.

Também me disseram que eu deveria ceder. Que era inevitável. Que resistir era inútil diante dos interesses maiores. Mas aprendi que há momentos em que permanecer é, por si só, um ato de ruptura. Permanecer é dizer: nem tudo está à venda.

Há quem confunda crescimento com desenvolvimento. Crescer, para muitos, é expandir, construir, ocupar, explorar — mesmo que isso signifique esgotar o que sustenta a vida. Esse é o desenvolvimento predatório: rápido, visível, lucrativo para poucos e devastador para muitos.

Mas o verdadeiro desenvolvimento não destrói suas próprias bases. Ele respeita os limites da terra, escuta as comunidades, preserva o que não pode ser recriado. O desenvolvimento sustentável não é ausência de mudança — é mudança com responsabilidade, com continuidade, com cuidado. Ele não transforma paisagens em mercadorias descartáveis, mas em heranças vivas.

O predatório promete riqueza imediata e deixa ruínas futuras. O sustentável constrói lentamente, mas deixa permanência. Um consome o território; o outro convive com ele.

A orla não pertence aos empreendimentos que a cercam, nem aos projetos que prometem riqueza a poucos. Ela pertence ao vento, às marés, às comunidades que nela vivem e às gerações que ainda virão. Privatizar o espaço público é empobrecer o mundo — é retirar das pessoas não apenas o acesso, mas o direito de existir em comum.

Defender vossa terra é também defender o tempo. É impedir que o imediato destrua o duradouro. É recusar a lógica que transforma beleza em ativo e vida em oportunidade de negócio.

Guardai vossas praias, vossas falésias e vossas florestas como quem reconhece algo essencial.

E quando disserem que a luta é em vão, lembrai-vos: uma única decisão firme pode mudar o destino de uma paisagem inteira. Eu vi isso acontecer.

Que sejais, como as águas que insisto em defender, persistentes. Que a vossa resistência esculpa o futuro com a mesma paciência com que o mar molda a terra.

Das margens de Gullfoss,

em solidariedade às vossas marés,

Sigríður Tómasdóttir (em espírito e memória)

Concebida por Palmarí H. de Lucena