Escrevo-lhe com a serenidade que o tempo ensina, mas com o peso de um lamento que nunca se dissipa. Hoje, Gaza arde — e não apenas em fogo visível, mas na combustão invisível do ódio, da desconfiança e da desesperança. O vento que sopra dali traz o murmúrio de promessas quebradas, como vasos de barro que se partiram ao primeiro impacto.
Sonhamos, alguns de nós, com um futuro em que Israel e Palestina fossem dois Estados soberanos, vizinhos que se respeitam, respirando o mesmo ar sob o mesmo céu. Mas os acordos que tentamos forjar — frágeis como fios de seda — cederam ao peso das guerras, das mágoas acumuladas e do cálculo frio dos interesses imediatos. O extremismo religioso, alimentado por narrativas absolutas, e o oportunismo político, que se nutre do medo e da divisão, corroeram as bases de confiança. As fronteiras tornaram-se cicatrizes; e as cicatrizes, fronteiras.
E há ainda, Oded, a ferida aberta da Cisjordânia: a violência de alguns colonos contra populações civis palestinas, que deveriam ser protegidas pela lei, mas enfrentam agressões, destruição de colheitas e intimidação armada. Essa realidade não só agride o povo que sofre, mas envenena o espírito de quem pratica e silencia. A impunidade aqui é um ácido que corrói qualquer discurso de paz.
Você, que semeia pontes entre setores e povos, sabe que uma paz duradoura não se ergue apenas em gabinetes nem se escreve apenas em tratados. Ela começa nas fundações da vida cotidiana — justiça, educação e dignidade. Não se pode exigir moderação de quem só conheceu a privação, nem diálogo de quem viveu sob o som constante das sirenes.
Por isso admiro profundamente sua convicção e a confiança inabalável que deposita nos princípios éticos que defende — princípios que veem na dignidade humana, na equidade e na responsabilidade social as colunas de uma paz duradoura. É essa visão que inspira a construção de baixo para cima: agricultores que possam colher suas azeitonas sem medo, professores que ensinem sem transformar o passado em munição, crianças que descubram que o outro não é inimigo, mas companheiro de futuro.
Gaza, por sua vez, é símbolo e cárcere. Símbolo de resistência e dor, cárcere de um povo cercado pela pobreza e pela impossibilidade de sonhar. Há quem veja apenas ameaça; eu vejo também o espelho da nossa incapacidade de compreender que a segurança de um só se constrói na segurança de todos. E nesse espelho refletem-se também a sanha por uma retaliação travestida de justiça, que apenas perpetua o ciclo da violência e afasta qualquer horizonte de paz.
Recordo-me de Oslo — não apenas como um lugar, mas como um instante suspenso no tempo, quando a confiança ousou florescer entre pedras. Descobri ali que a paz não nasce de uma assinatura: ela é colheita que exige rega diária. E como todo jardim, morre se entregue à negligência.
Dizem que a paz é cara. É mentira. Cara, é a guerra. A paz, quando verdadeira, custa apenas a coragem de ceder, de ouvir e de romper o ciclo da humilhação. É um preço que, no fundo, é um investimento no amanhã.
Se esse amanhã chegar, talvez duas crianças — uma israelense, outra palestina — joguem bola na mesma rua e riam sem saber que, um dia, isso foi impossível. Nesse riso, todo o esforço terá valido a pena.
Com estima e esperança,
Shimon Peres
Concebida por Palmarí H. de Lucena