Carta Apócrifa de Salvatore Giuliano, o Bandido da Sicília, aos Bandidos do Novo Cangaço

Carta Apócrifa de Salvatore Giuliano, o Bandido da Sicília, aos Bandidos do Novo Cangaço

(Escrita do exílio dos mortos — entre Montelepre e o semiárido das manchetes)Aos senhores do novo cangaço,

Ouço seus nomes ecoando em cidades que só viram a cor da notícia quando vocês chegaram com dinamite e fuzil. Lembro de mim mesmo: Salvatore Giuliano, o bandido de Montelepre, entre canaviais e montanhas, entre promessas de justiça e beijos falsos da máfia. No meu tempo, acreditávamos — ou fingíamos acreditar — que se matava por revolta, por miséria, por abandono.

Mas vocês… vocês não são herdeiros da injustiça. São filhos da cobiça.

Não há grito por terra nem clamor do povo nos seus ataques. Não há ideologia, só a ânsia por caminhonetes blindadas, por relógios suíços, por armas banhadas em ego. Suas metralhadoras não miram o sistema — miram o caixa eletrônico.

Vocês explodem bancos como quem busca glória em rede social. Riem diante das câmeras, editam vídeos, dançam sobre os escombros de cidades esquecidas, enquanto fingem ser cangaceiros de um sertão digital.

Não se trata mais de vingança contra o Estado, mas de vício pelo assalto fácil. Vocês não são marginalizados — são empresários do terror, financiados por planilhas, cúmplices infiltrados e contas no exterior.

Conheço bem essa rede: ela não se sustenta sem aqueles que, de dentro da farda, do gabinete ou da agência bancária, entregam rotas, turnos, cofre e silêncio. Sim, há sempre um homem que abre a porta antes que ela seja arrombada. E outro que se cala antes que seja morto.

Mas atenção: o mesmo sistema que hoje sussurra em seus ouvidos, amanhã irá gritar por sua cabeça. A mesma polícia que hoje vaza, depois prende. O mesmo poder que hoje acoberta, amanhã queima arquivo. A história dos bandidos modernos termina quase sempre com uma delação premiada — ou com um vídeo desfocado de um corpo caído no mato.

A morte é breve. A ilusão de grandeza, menor ainda.

Sejam ao menos lúcidos no erro. Ou tenham coragem de mudar o rumo. Não há mais romantismo no crime. Só a repetição entediante de uma tragédia cada vez mais medíocre.

Com os ossos enterrados num lugar incerto e o nome distorcido pelos livros,

Salvatore Giuliano
(Nem mártir, nem herói. Apenas um espelho do que virá.)

Por Palmarí H. de Lucena