Carta apócrifa de Ray Bradbury a seu homólogo brasileiro Bráulio Tavares

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Carta apócrifa de Ray Bradbury a seu homólogo brasileiro Bráulio Tavares

Los Angeles, numa madrugada em que Marte arde como brasa no horizonte

Caro Bráulio,

Escrevo-lhe como quem envia uma garrafa através do espaço. Não através do mar — que é lento e terrestre — mas através dessa corrente invisível que liga as imaginações humanas. Talvez a carta leve anos para chegar. Talvez atravesse constelações. Talvez seja encontrada um dia por algum leitor curioso numa biblioteca futura, em Marte, onde os livros repousarão como fósseis luminosos da Terra.

Conheço seu trabalho, Bráulio, e ao lê-lo tive uma estranha sensação de reconhecimento — como se uma voz distante estivesse respondendo a perguntas que eu mesmo fiz há muito tempo.

Passei boa parte da vida escrevendo sobre Marte. Não o Marte dos astrônomos, mas o Marte dos sonhadores — aquele planeta onde os desertos são feitos de silêncio vermelho e as cidades antigas parecem lembrar algo que a humanidade esqueceu. Quando escrevi The Martian Chronicles, eu não estava interessado apenas em foguetes ou colonizações. Eu queria falar do espanto humano diante do infinito.

E eis que encontro, em seus livros, esse mesmo espanto.

Mas o seu céu é outro.

Enquanto minhas histórias nasceram sob o vento das planícies americanas, suas narrativas parecem erguer-se sob o sol antigo do Nordeste brasileiro. Há nelas um horizonte onde o sertão conversa com as galáxias. Onde o universo pode ser explicado tanto por telescópios quanto por cantadores.

Imagino o sertão à noite: o céu imenso, as estrelas ardendo sobre a paisagem seca, e algum poeta olhando para cima e percebendo que o cosmos não é apenas uma questão de astronomia — é também uma questão de imaginação.

Foi assim que li seus textos.

Em suas páginas encontro paradoxos, labirintos de pensamento, ideias que se desdobram como espelhos dentro de espelhos. Às vezes sinto que seus livros são pequenas bibliotecas cósmicas, onde convivem ciência, filosofia, literatura fantástica e aquele humor inteligente que apenas os verdadeiros leitores possuem.

Seus contos parecem perguntar:

E se o universo for uma grande narrativa ainda em andamento?
E se o tempo for apenas uma história contada de trás para frente?
E se cada estrela for um verso ainda não escrito?

Há momentos em que seus textos me lembram folhetos de cordel lançados ao espaço. Imagino esses livretos atravessando constelações, carregando rimas, enigmas e mitos brasileiros até algum planeta distante onde leitores desconhecidos tentariam decifrar aquela música terrestre.

Isso me encanta.

Porque sempre acreditei que a literatura é exatamente isso: uma forma de viagem interestelar realizada apenas com palavras.

Quando escrevo sobre foguetes, não penso em motores. Penso na imaginação humana tentando escapar da gravidade do cotidiano. E quando leio suas histórias, percebo que você também compreende essa verdade: o universo da ficção científica não é feito de máquinas, mas de perguntas.

Perguntas grandes o suficiente para atravessar galáxias.

Talvez nossas paisagens sejam diferentes. Eu cresci numa cidade americana cheia de cinemas antigos, verões intermináveis e meninos que sonhavam com foguetes. Você cresceu num território onde a cultura popular, a oralidade e o mistério do sertão transformam qualquer história em mito.

Mas veja que coisa curiosa: quando a imaginação começa a trabalhar, as geografias se aproximam.

O deserto marciano se parece, às vezes, com o sertão.
Ambos conhecem o silêncio das estrelas.
Ambos sabem que a noite é um grande livro aberto.

Talvez seja por isso que seus textos me parecem familiares. Eles pertencem a uma tradição rara — a tradição daqueles escritores que não se contentam em descrever o mundo, mas insistem em ampliá-lo.

Você escreve como quem constrói telescópios com palavras.

E cada leitor que se aproxima de sua obra descobre que, ao olhar através deles, o universo parece um pouco maior.

Continue, meu caro Bráulio.

Continue escrevendo histórias que façam as estrelas descerem até a página. Continue inventando bibliotecas impossíveis onde ciência e poesia se encontram. Continue enviando seus livros como pequenas sondas literárias para o futuro.

Quem sabe, em alguma noite distante, um leitor marciano abrirá um desses livros e dirá:

— Veja. A Terra foi um planeta onde os homens sabiam imaginar.

E isso, Bráulio, já será suficiente.

Com admiração cósmica,

Ray Bradbury

Concebida por Palmarí H. de Lucena