Senhores e Senhoras,
Escrevo-lhes da margem tranquila da memória histórica, onde as paixões do presente já não turvam tanto o juízo dos acontecimentos. Aqui, onde o tempo serve mais para ponderar do que para disputar, observo com atenção o modo como o mundo volta a desconfiar da própria ideia de cooperação entre nações.
Durante grande parte da minha vida pública, servi à comunidade internacional sob a bandeira das Nações Unidas. Não o fiz por ingenuidade, tampouco por acreditar que os governos do mundo se tornariam subitamente virtuosos. Fiz isso porque compreendi algo simples: quando as nações deixam de conversar em uma mesa comum, elas inevitavelmente acabam falando por meio de canhões.
O multilateralismo nunca foi um templo de pureza moral. Sempre foi, isto sim, um instrumento imperfeito para conter a violência da política internacional. Seu mérito reside precisamente nisso: permitir que interesses divergentes encontrem um idioma comum antes que se transformem em conflito aberto.
Com frequência, escuto acusações de que as instituições multilaterais limitam a soberania dos Estados. Permitam-me dizer, com a franqueza de quem testemunhou guerras e armistícios: a soberania absoluta, quando elevada a princípio inquestionável, torna-se frequentemente a mais curta estrada para o isolamento e, não raro, para o desastre.
Na ilha de Rodes, em 1949, quando negociei acordos de armistício entre inimigos que poucos acreditavam capazes de sentar-se à mesma mesa, aprendi uma lição que ainda hoje permanece válida. Nenhum acordo nasce da pureza; nasce da necessidade. E a necessidade da paz costuma ser maior que o orgulho das nações.
O multilateralismo não exige que os países abandonem seus interesses. Exige apenas que reconheçam que seus interesses existem dentro de um mundo compartilhado.
Vivemos em um planeta onde o comércio atravessa oceanos em dias, onde epidemias cruzam continentes em semanas e onde decisões tomadas em uma capital repercutem instantaneamente em outras dez. Nesse mundo interdependente, a política internacional não pode ser conduzida como se cada país fosse uma ilha autossuficiente cercada por muros invisíveis.
Não lhes peço que confiem cegamente nas instituições internacionais. Eu próprio jamais o fiz. Peço apenas que compreendam que destruir pontes é sempre mais fácil do que reconstruí-las.
A diplomacia multilateral não é uma renúncia à força de uma nação; é, na verdade, uma forma de civilizar essa força.
Sei que, em tempos de ansiedade política, o nacionalismo oferece respostas rápidas e emocionalmente satisfatórias. Promete ordem simples para um mundo complexo. Mas a história tem o hábito de cobrar juros elevados por essas simplificações.
Quando as nações se retiram da mesa comum, não se tornam mais livres; tornam-se apenas mais solitárias — e, muitas vezes, mais perigosas para si mesmas.
Recordo-lhes, portanto, uma convicção que guiou meu trabalho ao longo dos anos: a paz internacional nunca será perfeita, mas sempre será preferível à perfeição imaginária da rivalidade permanente.
A escolha, no fundo, permanece a mesma de sempre.
Conversar ou confrontar.
Cooperar ou competir até o limite do conflito.
A história ainda está escrevendo sua resposta.
Com consideração serena,
Ralph Bunche
Diplomata das Nações Unidas
Prêmio Nobel da Paz
Concebida por Palmarí H. de Lucena
Ralph Bunche (1904–1971) foi um diplomata e cientista político norte-americano que desempenhou papel decisivo na consolidação da diplomacia multilateral no século XX. Como alto funcionário das Nações Unidas, liderou as negociações dos Acordos de Armistício de 1949 no Oriente Médio e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1950, tornando-se o primeiro afro-americano laureado.