Montevidéu, junho de 2025
Lula, meu velho amigo,
Escrevo como quem conversa debaixo de uma árvore, longe do barulho dos palácios, com o coração aberto e o tempo nas mãos. Já vivemos muita coisa. Demos a volta por cima mais de uma vez. E talvez por isso mesmo, sinta que posso lhe escrever sem rodeios.
Sei que governar nunca foi simples. A cadeira pesa. As pressões apertam de todos os lados. Mas às vezes, para seguir em frente, é preciso parar, respirar e ouvir quem está de fora.
Tenho visto o Brasil de longe, com carinho e preocupação. Muita gente que caminhou com você começa a se calar. Não por raiva — mas por cansaço. Esperavam mais proximidade, mais sinal de que o rumo estava firme.
Você sabe que política não é só número e aliança. É confiança. É coerência entre o que se diz e o que se vive. O povo sente quando o discurso se afasta do gesto. E sente ainda mais quando quem dizia representar os de baixo passa a andar só entre os de cima.
Não quero falar de ideologia. Falo de sensibilidade. O Brasil está ferido, desconfiado, exausto. Precisa de governo que fale simples, que apareça, que escute. Seu maior trunfo sempre foi a ligação direta com o povo. Recupere isso. Vá ao encontro dos que sofrem. Ouça sem aparato, sem mediação. Volte às ruas com o ouvido atento e o coração desarmado.
E mais: pense no que vem depois. Prepare gente boa, nova, honesta, para continuar a caminhada. Liderança de verdade é aquela que forma outras, não que se isola. Dê espaço. Reparta a palavra. Um dia, todos nós descansamos. Mas a luta precisa seguir.
Também lhe digo: não se perca na lógica da troca. A governabilidade é necessária, claro, mas não pode virar desculpa para abrir mão do que é essencial. Há um limite entre ceder e se render. O povo sente a diferença.
Fale com clareza. Fale com verdade. O Brasil precisa reencontrar um projeto que emocione. Que fale de justiça, mas também de afeto. De pão na mesa, mas também de tempo para viver. O crescimento só vale se for para todos, e não para repetir privilégios antigos.
Encerro com um pedido sincero: ajude a construir uma frente ampla, não apenas de partidos, mas de valores. Uma frente que una quem sonha com um país mais justo, mais calmo, mais decente. E que saiba, acima de tudo, ouvir antes de responder.
Cuide-se. Cuide do Brasil.
Com afeto e respeito,
Pepe Mujica