Carta Apócrifa de Pedro Américo ao escritor Thélio Queiroz Farias

Carta Apócrifa de Pedro Américo ao escritor Thélio Queiroz Farias

Meu caro Thélio,

Escrevo-lhe de um tempo onde os calendários perderam o sentido e onde os homens já não disputam glórias, mas apenas a verdade de suas obras. Deste lugar de silêncio, pude acompanhar o labor paciente com que revisitaste minha vida, vasculhando arquivos, atravessando mares e percorrendo caminhos que outrora também percorri. Vi teu esforço e reconheci nele algo que sempre admirei: o compromisso com a memória.

Por muitos anos fui lembrado apenas por um instante congelado sobre a tela — o brado do Ipiranga, os cavalos em marcha, a espada erguida do príncipe. Não me entristece que essa pintura tenha se tornado símbolo da pátria; entristecia-me, contudo, que muitos julgassem haver existido apenas o pintor daquele quadro.

Fui, antes de tudo, um homem inquieto. A pintura foi minha linguagem mais conhecida, mas jamais minha única voz. Escrevi, filosofei, estudei as ciências, dialoguei com a literatura, servi ao Parlamento, viajei em busca do conhecimento e vivi entre o Brasil e a Europa convencido de que a inteligência não reconhece fronteiras.

Com teu livro, percebo que finalmente alguém decidiu olhar além da moldura.

Compreendeste que nenhuma existência pode ser reduzida à sua obra mais célebre. Mostraste que o menino nascido em Areia carregava uma curiosidade insaciável; que o jovem enviado à Europa não buscava apenas aperfeiçoar o pincel, mas ampliar o espírito; e que o homem maduro jamais deixou de acreditar que a arte e o saber constituem uma das mais elevadas formas de patriotismo.

Agradeço-te, sobretudo, porque não escreveste apenas sobre mim. Escreveste também sobre um Brasil que tantas vezes esquece seus próprios filhos. Ao recuperar minha história, recuperaste parte da memória cultural de nossa nação, lembrando às novas gerações que o talento floresce mesmo nos lugares mais improváveis, quando encontra disciplina, estudo e perseverança.

Sei que percorreste arquivos brasileiros e italianos, buscaste documentos adormecidos e até conversaste com descendentes que ainda guardavam ecos de minha família. Esse trabalho paciente possui uma nobreza que o tempo sempre recompensa. O historiador, como o pintor, trabalha contra o esquecimento.

Permite-me, entretanto, uma reflexão. Nenhuma biografia encerra definitivamente um homem. Cada geração reencontra seus personagens à luz de novas perguntas. Que teu livro não seja um ponto final, mas uma porta aberta para que outros pesquisadores continuem investigando minha obra, minhas ideias e, sobretudo, o século complexo em que vivi.

Aprendi, ao longo da existência, que a fama é passageira, enquanto a cultura permanece. As telas envelhecem, os livros amarelecem, os monumentos sofrem a ação do tempo; mas o conhecimento renasce sempre que alguém decide compreender o passado sem preconceitos.

Por isso, recebe minha gratidão.

Não pela homenagem que me prestaste, mas pela justiça histórica que procuraste realizar.

Que jamais te falte a inquietação do pesquisador, a coragem do escritor e a sensibilidade do poeta, pois são esses os instrumentos que permitem devolver voz aos que já não podem falar.

Se algum mérito possuo, pertence agora também aos que, como tu, recusam deixar que a poeira do tempo cubra a memória dos homens.

Com estima e esperança,

Pedro Américo de Figueiredo e Melo

(Carta imaginária escrita do reino da memória, onde a arte continua sendo a mais bela forma de eternidade.)

Concebida por Palmarí H. de Lucena