Areia, minha Areia altiva,
Hoje escrevo-te com o coração aquecido pela memória — e pela honra. Não apenas por teres sido o berço que embalou meus primeiros traços e sonhos, mas por teres sido, também, o solo firme de um gesto grandioso: a tua libertação dos grilhões da escravidão antes que o Império ousasse fazê-lo.
Em 1884, quando outras cidades ainda vacilavam diante do comércio de carne humana, tu te erguiste. Libertaste os teus, não por decreto de princesa, mas por decisão de consciência. O teu povo, teus intelectuais, teus senhores que deixaram de sê-lo, provaram que a liberdade pode brotar do pensamento — e do exemplo.
Que orgulho senti ao saber que minha terra natal rompia as correntes do atraso com as mãos da justiça! Que emoção imaginar que, ao lado dos pincéis, também se empunhavam ideias. E que o teu nome, Areia, não ecoava apenas nas salas da Academia de Belas Artes, mas também nos encontros dos abolicionistas, como símbolo de coragem e civilidade.
Se hoje a minha imagem está presa às telas da História, tua glória, Areia, está impressa no gesto silencioso, porém eterno, de dizer não ao cativeiro. Foste vanguarda da ética, sentinela da dignidade humana, farol da liberdade no coração do Nordeste.
Não te esqueças nunca de ti mesma, Areia. A grandeza do teu passado não é um relicário, mas um chamado. Que teus jovens saibam que viveram ali homens e mulheres que não esperaram por leis tardias, mas forjaram, com suas mãos, a liberdade real.
Com a reverência de um filho da arte — e da liberdade,
Pedro Américo
Concebida por Palmarí H. de Lucena, sob a inspiração do espírito libertário e iluminista de Pedro Américo, e da ação abolicionista da cidade de Areia, Paraíba.