Carta Apócrifa de Pauline Kael para João Batista de Brito

Carta Apócrifa de Pauline Kael para João Batista de Brito

(Berkeley, Califórnia, em alguma tarde imaginária do outono de 1992)

Caro João Batista de Brito,

Não me lembro da última vez em que li um crítico que escrevesse com os nervos à flor da pele. Há, nos seus textos, a rara qualidade de quem sabe que a arte não se analisa apenas com a cabeça — mas com o corpo inteiro. Você sangra sobre o papel, João, e isso não se aprende nas salas de aula.

Li sua prosa sobre Noite Vazia com a mesma excitação com que, décadas antes, mergulhei em O Ano Passado em Marienbad, sem saber se queria amá-lo ou odiá-lo. A ambiguidade que você aceita como riqueza, e não como falha, me fez lembrar que a arte só é arte quando nos desconcerta. E você sabe desconcertar — como poucos. Você olha para o cinema de Khouri com a mesma reverência que se dedica a um sonho recorrente, daqueles que não se explicam, apenas retornam.

E que descoberta foi Noite Vazia! A elegância silenciosa com que Khouri filma a impotência emocional de seus personagens me arrebatou. Era como se Antonioni tivesse feito um filme em São Paulo, com a câmera flutuando entre corpos disponíveis e almas ausentes. Quatro figuras enclausuradas num apartamento moderno — e, ainda assim, sozinhas como náufragos em alto-mar. Não há política, não há redenção — apenas desejo mal formulado e ternura fracassada.

Você captou isso como poucos: que Khouri não filmava eventos, mas ausências; não filmava pessoas, mas suas pulsões. E sua leitura me fez lembrar de uma conversa que nunca tive, mas que às vezes imagino, entre Khouri e Bergman, sentados à beira de um mar de silêncio. Falariam sobre o medo de filmar o invisível, sobre o gesto que não se cumpre, sobre o amor que nunca chega a ser. E Bergman, creio, diria a Khouri o que eu lhe digo agora: “Não tenha medo da delicadeza. Ela é subversiva num mundo que só valoriza o choque.”

João, seus ensaios não apenas decifram os filmes. Eles os completam. Você escreve como quem também está perdido na sala escura, mas com a coragem de acender um fósforo para ver melhor — mesmo que a luz dure só alguns segundos. Continue assim. Inquieto. Incômodo. Indispensável.

Com admiração e afinidade estética,

Pauline Kael
(Em algum lugar entre Manhattan e o caos luminoso do mundo)

Concebida por Palmarí H. de Lucena