Às empresas e aos homens e mulheres de boa vontade,
Já não falo entre vós em presença física, pois minha vida terrena se encerrou. Contudo, a fé que nos une e o amor ao próximo permanecem vivos, atravessando o tempo e tocando os corações daqueles que ainda acreditam na força da caridade.
Durante minha caminhada, dediquei-me aos pobres, aos doentes e aos esquecidos. Hoje, mesmo após minha partida, a realidade que tanto me inquietava continua presente em nossas cidades: pessoas vivendo nas ruas, marcadas pela pobreza, pelo desemprego e pela dependência; famílias que migram em busca de sobrevivência e encontram exclusão; jovens e meninas que, sem acolhimento, tornam-se vítimas da exploração e da violência.
Há também uma realidade muitas vezes ignorada: a dos cidadãos que vivem nas periferias das cidades, expostos diariamente a condições indignas. A falta de saneamento básico, a moradia inadequada e a escassez de oportunidades de trabalho contribuem para a proliferação de doenças e para a manutenção de um ciclo de pobreza difícil de romper. São pessoas invisibilizadas, cujas necessidades raramente recebem a devida atenção.
Enquanto isso, cresce em nossa sociedade uma cultura de ostentação e de valorização excessiva do consumo e do lucro, muitas vezes acompanhada de investimentos e decisões que beneficiam apenas aqueles que já possuem mais recursos. Essa lógica aprofunda desigualdades e enfraquece o compromisso com os mais pobres, que deveriam estar no centro de nossas preocupações.
Diante desse cenário, somos chamados a refletir sobre o verdadeiro sentido da solidariedade. Ser solidário não é apenas dar o que sobra, mas partilhar com amor aquilo que temos, reconhecendo no outro a presença de Deus. A fé cristã não se limita às palavras, mas se realiza na prática do bem e no cuidado com os mais necessitados.
Dirijo-me, de modo especial, às empresas e instituições, que possuem grande capacidade de transformação social. Que não se limitem à busca do lucro, mas assumam um compromisso verdadeiro com a justiça e a dignidade humana. Que promovam inclusão, gerem oportunidades e direcionem esforços também àqueles que mais precisam.
Faço ainda um apelo urgente pela manutenção das obras que nasceram da caridade, especialmente o Hospital Padre Zé. Esta instituição, símbolo de amor e serviço, continua sendo um refúgio para os doentes e necessitados. Sua continuidade depende do apoio, das doações e do compromisso de todos. Sustentar essa obra é preservar vidas e reafirmar a solidariedade como valor essencial.
A caridade é o coração da fé cristã. Ela não é um gesto isolado, mas um modo de viver. Quando ajudamos o outro, não apenas transformamos vidas, mas também nos aproximamos do verdadeiro sentido da existência.
Que não nos acostumemos com o sofrimento alheio. Que não fechemos os olhos diante da dor. Que sejamos instrumentos de esperança, de acolhimento e de amor.
Mesmo após minha partida, deixo-vos este apelo: continuai a obra do bem. Pois, ao final de tudo, não seremos lembrados pelo que acumulamos, mas pelo amor que fomos capazes de oferecer.
Com fé, esperança e caridade,
Padre Zé Coutinho
(em memória e inspiração)
Concebida por Palmarí H. de Lucena