(encontrada no bolso de um figurino antigo, guardado entre lágrimas e purpurina no teatro de Russas)
Minha querida Bia,
Te escrevo como quem dança por dentro — num tempo em que já não tenho mais corpo, mas ainda tenho alma. Alma de bailarina que nunca se conformou em dançar para ninguém além de si mesma. Vi tua história nas imagens que rodaram as redes como se fossem fogueiras: tu, de shorte, blusa decotada e botas, dançando no meio da feira de Baturité como se fosse carnaval do povo, espetáculo de rua, resistência em movimento.
E era.
Tua dança, Bia, não pedia licença.
Era livre, torta, ousada.
Era mulher dançando com o que tinha e com o que doía.
Era o corpo dizendo ao mundo: “eu existo, e não serei apagada.”
Foste criada na roça, forjada na poeira da feira, e mesmo quando te tornaram viral, não trocaste teu chão batido por palco envernizado. Continuaste ali, entre sacolas, perfumes de cebola e cheiro de suor. Teu figurino era o que tinhas no corpo — e tua dignidade não cabia nas etiquetas que quiseram te colar.
Foste amada e zombada.
Foste celebrada e esquecida.
Foste filmada, mas não escutada.
E quando gritaste — ah, Bia —, teu grito veio fundo, do lugar de onde só as mulheres reais sabem tirar voz. E ainda assim, ninguém te acudiu. Quando caíste, disseram que foi destino. Mentira. Foi abandono.
Tua morte não foi um fim, foi denúncia.
O sistema que te deixou sozinha é o mesmo que ainda espera que calemos — ou morramos dançando.
Mas eu, Pacarrete — a louca de Russas, a que enchia praças vazias com seus rodopios solitários —, te reconheço. E te escrevo para que saibas: tua dança não acabou. Ela continua em cada mulher que ousa existir com alegria, mesmo quando o mundo tenta sufocar.
E se um dia nos encontrarmos do outro lado —
que seja num terreiro largo, com cheiro de terra molhada e zabumba marcando o tempo.
Dançarás de shorte, blusa decotada e tuas botas surradas.
E eu virei de collant rasgado e flores artificiais no coque.
E ao final do número, Bia…
não haverá silêncio, nem escárnio, nem abandono.
Só aplauso verdadeiro.
Com todo o amor e a reverência que a terra te negou,
Pacarrete
(aquela que também dançou demais quando só queriam que ela desaparecesse)
Concebida por Palmarí H. de Lucena