Senhores e senhoras que hoje se arvoram em duvidar do saber científico,
Aqui quem vos escreve é um médico do passado, que enfrentou o medo com a coragem da razão, que andou pelas ruas do Rio com jaleco e dignidade, levando nas mãos não um porrete, mas a vacina — e no coração, a esperança de um Brasil livre da peste, da varíola e da ignorância.
Não fiz da medicina um espetáculo de vaidades. Fiz dela um pacto com a vida.
Em meu tempo, enfrentei revoltas. Fui xingado, apedrejado e ridicularizado por tentar proteger uma população vulnerável contra doenças que matavam sem aviso. Mas persistimos. E vencemos. Porque a verdade científica, quando guiada pelo bem comum, não se curva ao clamor das multidões desinformadas.
E então veio a pandemia do século XXI — a COVID-19 — e com ela, um novo e ainda mais perverso vírus: o da mentira. Enquanto médicos, enfermeiros e cientistas perdiam noites, entubavam corpos, criavam vacinas em tempo recorde, outros — travestidos de líderes — insuflavam dúvidas, debochavam da ciência, faziam da morte uma estatística politizada. Campanhas organizadas, muitas vezes com dinheiro público, espalharam medo contra as vacinas, atrasaram imunizações, e ceifaram milhares de vidas que poderiam ter sido salvas. Negar a vacina durante a COVID-19 foi mais do que um erro: foi um ato de sabotagem sanitária.
E que não tomem como modelo o que vem ocorrendo com a saúde pública nos Estados Unidos — país que, apesar de sua tecnologia, assiste ao desmonte de suas estruturas de controle sanitário, à corrosão da confiança nas agências de saúde e à ascensão de curandeiros modernos que prescrevem poções mágicas, suplementos e vitaminas como se fossem escudos universais. O nome disso não é liberdade: é feitiçaria travestida de ciência, é o xamanismo da ignorância vendida em frascos coloridos. O resultado é um povo cada vez mais adoecido, dividido e vulnerável.
Hoje, espanto-me com os que, vestindo paletós ou batas, deturpam com arrogância aquilo que a ciência levou séculos para edificar. Médicos que negam a vacina são como bombeiros que espalham gasolina. E políticos que alimentam teorias conspiratórias sobre imunização cometem um crime que ultrapassa o Código Penal: é o crime contra a memória, contra a inteligência coletiva, contra o futuro.
Vacinas não são dogmas. São conquistas.
Elas não operam milagres sozinhas — dependem da confiança pública, da transparência das autoridades e da ética dos profissionais de saúde. Mas negar sua eficácia com base em boatos, manipulações ou delírios ideológicos é cuspir no prato da humanidade. É flertar com o retorno de doenças que pensávamos vencidas.
Falsas verdades propagadas por discursos virais adoecem mais rápido que qualquer micróbio.
Negar a vacina é pactuar com o sofrimento evitável, com o leito ocupado à toa, com a morte anunciada de quem poderia viver. É trair o juramento que fizemos ao escolher a medicina — o de servir à vida, e não às conveniências do poder ou ao aplauso dos ignorantes.
Aos que ainda têm ouvidos: escutem. Às que ainda têm dúvidas: estudem. Aos que ainda têm voz pública: usem-na com responsabilidade.
A ciência pode não ser perfeita. Mas é o melhor instrumento que temos contra a escuridão.
Respeitosamente,
Oswaldo Cruz
(Médico, sanitarista e defensor da vida)
Concebida por Palmarí H. de Lucena, em honra à verdade científica e à memória dos que salvaram vidas com coragem e sabedoria.