Senhor Primeiro-Ministro,
Permita-me dirigir-lhe estas palavras em espírito de reflexão histórica e responsabilidade internacional. Falo como alguém que, em outro momento decisivo do século XX, teve a honra de presidir os trabalhos da Assembleia Geral das Nações Unidas quando a comunidade das nações deliberou sobre o futuro da Palestina e abriu caminho para a criação do Estado de Israel.
Naquele período, ainda marcado pelas devastadoras consequências da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional buscava reafirmar princípios fundamentais de convivência entre os povos. Entre esses princípios destacava-se o reconhecimento do direito de povos historicamente perseguidos de viver com dignidade, segurança e soberania. A criação de Israel foi entendida, naquele contexto, como expressão desse compromisso moral e político assumido pelas nações.
Ao longo das décadas, Israel consolidou instituições sólidas, uma sociedade dinâmica e uma presença significativa na vida internacional. Ao mesmo tempo, a região do Oriente Médio permaneceu marcada por tensões persistentes, conflitos recorrentes e desafios complexos que continuam a exigir prudência, discernimento e liderança política.
A experiência diplomática acumulada ao longo do século XX demonstra que a legitimidade e a autoridade moral de um Estado se fortalecem quando a defesa de sua segurança se harmoniza com os princípios universais que orientam o direito internacional e a proteção da vida humana. Em cenários de conflito prolongado, essa responsabilidade torna-se ainda mais sensível.
É uma realidade amplamente reconhecida que, em guerras e confrontos assimétricos, as populações civis frequentemente suportam as consequências mais severas da violência. Mulheres, crianças e idosos — alheios às decisões estratégicas e às estruturas militares — acabam por enfrentar os efeitos mais duradouros das hostilidades. Por essa razão, a prudência no uso da força e a constante consideração pelas implicações humanitárias constituem elementos essenciais da responsabilidade de qualquer liderança nacional.
A segurança de Israel, diante das ameaças que enfrenta, é uma preocupação legítima e compreensível no contexto das relações internacionais. Ao mesmo tempo, a história demonstra que a estabilidade duradoura dificilmente pode ser alcançada apenas por meios militares. Ela depende, sobretudo, da capacidade de preservar princípios de humanidade mesmo nos momentos de maior tensão.
Recordo que, nas sessões decisivas das Nações Unidas em 1947, o objetivo não era apenas estabelecer um novo Estado no sistema internacional. Buscava-se também criar condições para que diferentes povos, vinculados à mesma terra por laços históricos e espirituais profundos, pudessem aspirar a um futuro de coexistência e reconhecimento mútuo.
A paz no Oriente Médio permanece um ideal difícil, mas indispensável. Sua construção exigirá, inevitavelmente, coragem política, visão histórica e a disposição de reconhecer que a dignidade humana deve permanecer no centro de qualquer solução duradoura.
Que a liderança de Israel continue a conciliar a legítima defesa de sua segurança com os valores universais que sustentam a autoridade moral das nações perante a história e a comunidade internacional.
Com elevada consideração,
Oswaldo Aranha
Rio de Janeiro, em memória de um momento decisivo da diplomacia internacional
Concepção literária de Palmarí H. de Lucena
Nota biográfica
Oswaldo Aranha (1894–1960) foi diplomata e estadista brasileiro e uma das figuras centrais da política externa do Brasil na primeira metade do século XX. Como presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas em 1947, conduziu os debates que culminaram na aprovação do plano de partilha da Palestina, considerado um marco diplomático no processo que levou à criação do Estado de Israel.