Senhor Prefeito,
Escrevo-lhe não movido pela nostalgia, mas pela inquietação. Há edifícios que envelhecem com beleza e outros que envelhecem com abandono. A Estação Ciência, em João Pessoa, infelizmente caminha pela segunda estrada — e isso me obriga, ainda que do silêncio, a escrever.
Sempre acreditei que a arquitetura pública deve ser generosa. Deve acolher o povo como a praça acolhe os passos e o mar acolhe a luz. A Estação Ciência jamais foi desenhada para ser ornamento de cartão-postal nem ruína elegante para fotografias ocasionais. Ela nasceu com vocação de abrigo do pensamento, de ponto de encontro entre a cidade e o saber.
O que vejo hoje é o oposto do que projetei em espírito. Vejo desprezo onde deveria haver cuidado; vejo portas fechadas onde imaginei crianças; vejo ferrugem onde sonhei com futuro. E um edifício maltratado não é apenas matéria que se perde — é uma ideia que se ofende.
A falta de manutenção não é simples falha técnica, Prefeito. É recado político. Um prédio abandonado fala — e fala alto. Diz que a cidade desistiu de aprender, desistiu de cuidar, desistiu de projetar. O concreto não reclama, mas acusa.
Projetar é prever o tempo, mas governar é não permitir que ele vença cedo demais. Um edifício público deve envelhecer com dignidade, como as cidades antigas que se renovam sem perder o espírito. O que ocorre com a Estação Ciência hoje é um envelhecimento sem respeito — mais próximo da demolição invisível que da maturidade urbana.
Nunca desenhei pensando apenas em estética. As curvas que fiz não foram caprichos: foram convites. Convites à permanência, ao encontro, ao espanto. Mas como convidar alguém para um espaço que se esvazia de sentido antes mesmo de se esvaziar de gente?
A cidade que aceita a morte lenta de seus espaços de cultura começa a morrer em silêncio. João Pessoa, com toda a sua beleza natural, não merece somar a paisagem ao descaso. O mar não compensa a indiferença. O sol não ilumina a omissão.
Prefeito, a Estação Ciência não pede discursos nem solenidades. Pede respeito. Pede função. Pede futuro. Restaurá-la não é apenas obra de engenharia — é gesto de consciência pública.
Que sua gestão não seja lembrada como a que deixou o concreto se transformar em metáfora de abandono. Que seja lembrada como a que devolveu sentido àquilo que nasceu para ensinar.
Arquitetura é política feita em silêncio. E o silêncio que hoje habita aquele edifício grita.
Despeço-me com a esperança teimosa de sempre: a de que ainda é possível transformar ruínas em horizontes.
Com convicção e desalinho com a negligência,
Oscar Niemeyer
Concebida por Palmarí H. de Lucena