Sobre o Tempo que se Esconde e o Barulho que Resta
Humanidade,
Nem sempre foste essa multidão apressada que corre sem saber para onde.
Houve um tempo em que teus passos seguiam o curso dos ventos, e o corpo sabia adormecer com a cadência do mundo.
O tempo não era medido: era vivido.
Ninguém o possuía — ele simplesmente passava, como passam as águas, os animais migratórios e os silêncios.
Mas um dia, inventaste o depois — e com ele, a ansiedade.
Começaste a contar o que era incalculável: a ternura, a amizade, a dúvida.
E vestiste o mundo com realidades imaginadas: contratos, bandeiras, moedas, credos.
Todas úteis. Todas frágeis.
O que era respiração virou cronograma. O que era presença virou meta.
Com engenho admirável, criaste estruturas que sustentam civilizações.
Mas esqueceste que toda estrutura precisa de respiro.
E agora, muitos de vocês vivem exaustos, não de trabalho, mas de ruído —
não de cansaço físico, mas de interrupções constantes que jamais permitem chegar ao centro de si.
Aos que sobreviveram ao barulho — não apenas o dos motores, mas o barulho invisível das exigências, das urgências fabricadas, das comparações automáticas —,
meus olhos pousam com respeito.
Vocês resistiram sem armas, apenas com escuta.
Carregaram o peso de estar presentes num tempo que favorece o ausente.
E mesmo cercados por telas e tarefas, souberam preservar um abrigo onde ainda é possível ouvir a própria respiração como um tambor esquecido.
Talvez não sejam muitos. Talvez estejam feridos.
Mas onde há um só que silencia sem fugir, e escuta sem pressa,
há esperança de recomeço.
O tempo — esse velho companheiro que parecia perdido — não desapareceu.
Apenas se escondeu nas dobras dos gestos sem finalidade, no calor de um olhar que não exige nada, nas pausas não programadas.
Procurem-no não nos ponteiros, mas naquilo que não pode ser marcado:
a espera sincera, o encontro gratuito, o cansaço aceito sem culpa.
E se algum dia, no meio da pressa, você lembrar desta carta —
que ela não seja cobrança, mas lembrança:
há outra forma de viver. E ela ainda está aí, dentro de você, à espera de uma fresta.
Com ternura e verdade,
O Escriba do Entardecer
Concebida por Palmarí H. de Lucena, inspirada no livro Homo Sapiens de Noah Harari