Querida Maria Valéria,
Escrevo-te movida por essa antiga certeza de que a literatura, quando verdadeira, nasce menos da ambição das palavras do que da densidade da vida. Em teu percurso reconheço esse pacto raro entre existência e narrativa — como se cada passo teu pelo mundo tivesse sido, desde sempre, uma forma de semear histórias.
Recordo que foste jovem em um tempo áspero da história brasileira. Enquanto o país se cobria de silêncio após o golpe de 1964, escolheste abrir a porta de tua casa àqueles que buscavam abrigo. Esse gesto, aparentemente doméstico, continha já a grandeza moral que reconheço nos escritores que não se furtam à responsabilidade humana. A hospitalidade, Maria Valéria, é também uma forma de linguagem.
Depois, tua decisão de ingressar nas Cônegas de Santo Agostinho pareceu-me menos um recolhimento do que uma expansão do mundo. Como se, ao escolher a vida religiosa, tivesses ampliado o território da escuta. Percorreste continentes, ensinaste a ler aos que a história mantivera à margem, participaste dessa silenciosa revolução que a educação popular realiza — devolvendo às pessoas a dignidade da palavra.
Talvez por isso tua literatura carregue uma matéria tão viva. Não se trata apenas de invenção, mas de experiência decantada, de memória filtrada pelo olhar compassivo de quem conhece os caminhos da pobreza, da migração e da esperança.
Quando penso em teus livros — O Voo da Guará Vermelha, Quarenta Dias, Outros Cantos — vejo neles verdadeiras peregrinações narrativas. Tuas personagens caminham como quem busca não apenas um destino, mas também um sentido para a própria existência. São figuras errantes, muitas vezes invisíveis aos olhos do poder, mas que em tua escrita recuperam a sua dignidade secreta.
O Nordeste que escolheste habitar — entre o Brejo paraibano e João Pessoa — parece ter encontrado em ti uma guardiã de suas vozes. Sabes ouvir o rumor das estradas, o murmúrio das casas simples, a memória escondida nas conversas aparentemente banais. É desse chão humano que brota a força de tua ficção.
E admiro, sobretudo, tua capacidade de alternar o vasto e o mínimo: ora construindo romances que percorrem grandes travessias, ora detendo-te na delicadeza breve dos haicais, como quem recolhe no quintal um instante fugaz da vida. Essa atenção ao pequeno revela uma sabedoria antiga: a de que o infinito também se abriga nas coisas modestas.
Se os prêmios vieram — o Jabuti, o Casa de las Américas — eles apenas confirmam aquilo que teus leitores já sabiam: que tua escrita nasce de um compromisso profundo com o humano. E é esse compromisso que concede permanência à literatura.
Escrever, Maria Valéria, é também um ato de companhia. E teus livros têm acompanhado muitos — caminhantes, exilados, leitores solitários — oferecendo-lhes uma forma de reconhecimento.
Recebe, portanto, meu abraço literário e fraterno. Que tua obra continue a percorrer estradas invisíveis, recolhendo vozes dispersas e lembrando-nos de que a literatura ainda pode ser uma pátria de hospitalidade.
Com admiração e afeto,
Nélida
Concebida por Palmarí H. de Lucena