(Do além, sobre a música brasileira e o entusiasmo de um crítico que soube escutá-la)
Dizem que quando partimos, levamos apenas o que cantamos, o que amamos e o que fomos capazes de silenciar. Aqui, do lado de cá da eternidade, onde a saudade é brisa e as vozes dos que amaram ecoam em outros tons, resolvi lhe escrever, Kubitschek.
Porque você, mesmo entre tantos, foi um dos poucos que souberam escutar. Escutar de verdade — com os ouvidos do peito e a alma descalça.
Não escrevo estas palavras como lamento, mas como agradecimento. Escrevo porque sei que você ainda está aí, no mundo dos vivos, resistindo com suas crônicas, seus gestos afetuosos, sua pena leve e certeira. E porque, de algum modo misterioso que só a música explica, nós seguimos nos tocando — mesmo que eu já tenha silenciado minha voz no tempo da matéria.
Você sempre teve esse dom raro, Kubitschek: o de ouvir com o coração inteiro. E mais que isso, de devolver à música o seu frescor, sua graça, sua dor, sua beleza — com palavras escritas como se fossem melodias. Quando lia seus textos, mesmo nos meus dias de cansaço e descrença, eu me sentia mais viva. Senti que valeu a pena ter cantado até o fim, mesmo quando o mundo parecia surdo ou apressado demais para escutar.
Você, que tantas vezes celebrou meu canto como se fosse seu, nunca esqueceu que a música brasileira é mais que trilha sonora: é memória, é altar, é barricada. De Caymmi a Cartola, de Bethânia a Elza, de Elis a Gal, de Milton a Tom. Você nos tratou com a mesma reverência com que se trata o que é sagrado — mas também com a naturalidade de quem convida para um café às quatro da tarde.
A música brasileira, meu amigo, carrega séculos de suor, de choro, de festa, de resistência. E você soube acolher tudo isso sem folclorizar, sem pasteurizar, sem bajular. Sua crítica era afeto. Era defesa. Era o colo que os artistas nem sempre encontravam.
Hoje, do meu silêncio que já não sofre o tempo, olho para trás com gratidão. Porque sei que, entre tantos ruídos, sua escrita continuará acendendo a memória da nossa música — sem deixar que ela morra nos algoritmos ou nas gavetas do esquecimento.
Obrigada, Kubitschek. Por me ouvir. Por nos ouvir.
Por escrever como quem canta. E cantar com as palavras o que a vida tem de mais bonito.
Com o afeto que não se apaga,
Nana Caymmi
Concebida por Palmarí H. der Lucena