Carta Apócrifa de Mestre Firmo Santino ao Historiador José Avelar Freire

Carta Apócrifa de Mestre Firmo Santino ao Historiador José Avelar Freire

Caiana dos Crioulos, nos silêncios e sons que o tempo não apaga.

Caro José Avelar,

Escrevo-lhe destas bandas altas de terra preta e alma ancestral, onde a mata murmura segredos que só quem tem ouvidos de griô consegue escutar. Recebi, pelos ventos do tempo, a notícia de sua mais recente empreitada: um livro que recolhe e revive a memória de nossa Alagoa Grande — dos engenhos à esperança, das veredas esquecidas ao batuque persistente de um povo que nunca se calou.

Pois saiba, meu irmão, que esse seu livro, já circulando nas mãos curiosas de jovens e anciãos, é tambor de memória. Cada página é um toque no couro da zabumba do tempo. E como é bom saber que você, como bom historiador, deixou que os ecos da Caiana também ressoassem em sua escrita.

Lembra daquela fotografia? Eu, Vital, José Capalo, Anísio, Antônio José, Heleno e José Januário — todos alinhados na pista do Aeroporto Castro Pinto, de frente para aquela aeronave da Panair, que mais parecia um pássaro de prata prometendo mundos. Fomos levados a Brasília pelas mãos generosas do Tenente Lucena, que viu em nossa música mais do que festa: viu história.

Mas lhe digo, José Avelar: mais do que chegar à capital do país, o que nos orgulha é saber que nunca saímos da Caiana. Mesmo quando os pífanos sopravam suas notas no Planalto Central, era a voz da serra que vibrava ali. Levamos conosco os pés descalços das crianças no terreiro, o riso das cocadeiras, a palma compassada das cirandeiras, o perfume do feijão-de-corda no fogo lento. E deixamos, no rastro do avião, um fio invisível que nos ligava à raiz.

Dizem que griô é quem canta, narra e guarda os caminhos da comunidade. Pois agora vejo que você também é griô, José Avelar. Não pelo pífano, mas pela pena. Porque contou o que muitos esqueceram, revelou o que alguns tentaram esconder. E sua pena, como a flauta de bambu que aprendi a fazer ainda menino, sopra verdades com doçura e precisão.

Que seu livro, então, seja sopro que desperta. Que cada leitor encontre em suas palavras um pouco de nós: da ciranda ao coco de roda, do grito abafado do quilombo à dança liberta do agora. E que os filhos e netos dos nossos netos saibam que um dia houve um mestre chamado José Avelar, que escreveu para que não morrêssemos duas vezes.

Siga, portanto, com coragem e ternura. O mundo precisa de mais griôs como você.

Saúdo-o com um abraço de bambu,
Firmo Santino
Mestre da Banda de Pífano da Caiana dos Crioulos
Guardião das histórias sopradas no vento

Concebida por Palmarí H. de Lucena