Carta Apócrifa de Mawlānā Rūmī para o repentista Oliveira de Panelas

Carta Apócrifa de Mawlānā Rūmī para o repentista Oliveira de Panelas

Carta apócrifa de Mawlānā Rūmī ao poeta repentista Oliveira de Panelas
Konya, na eternidade do século XIII

Meu irmão Oliveira de Panelas,

Escrevo-te de um tempo onde os séculos já não têm pressa e onde a palavra continua procurando o mesmo destino de sempre: o coração dos homens.

Chegou até mim notícia da tua arte — essa cantoria que nasce sem aviso, como água que brota de repente na pedra seca do sertão. Dizem que tua viola não apenas acompanha o verso: ela pensa junto com ele, respira com ele, e às vezes até parece saber antes o caminho da rima.

No lugar onde vivi, os homens giravam em silêncio para ouvir Deus. Chamavam-nos dervixes. Rodopiavam até que o mundo deixasse de ser barulho e virasse música.

No teu Nordeste, percebo que o mistério acontece de outra maneira.

Dois homens sentam-se frente a frente, a viola entre as mãos, o povo em roda, a noite escutando. E então começa o duelo de inteligência, de ritmo, de imaginação. Cada sextilha nasce como um pássaro recém-liberto, voando sem mapa, mas sabendo exatamente para onde ir.

No fundo, meu irmão, é a mesma dança.

O improviso é uma forma de oração.

Porque o verso que nasce no instante não vem apenas da memória. Ele vem de um lugar mais profundo, onde o espírito guarda coisas que a razão ainda não descobriu.

Aprendi, ao longo da vida, que o verdadeiro poeta não fabrica palavras. Ele apenas abre uma porta.

E quando a porta se abre, o universo entra cantando.

Imagino as noites do teu sertão: a poeira leve da estrada, o brilho das estrelas grandes, o povo reunido para ouvir dois cantadores transformarem pensamento em melodia. Enquanto um provoca, o outro responde; enquanto um desafia, o outro constrói.

É sabedoria vestida de cantoria.

Há quem procure a verdade em tratados grossos e bibliotecas silenciosas. Mas muitas vezes ela aparece justamente onde a palavra é viva, onde o pensamento corre solto e onde o riso acompanha a reflexão.

O repente, Oliveira, é filosofia com chapéu de couro.

É pensamento montado numa viola.

Nunca duvides da grandeza dessa arte.

Cada desafio que cantas é também uma lembrança de que o espírito humano é capaz de criar beleza no mesmo instante em que pensa. E isso é um milagre raro.

Se algum dia o verso tardar a chegar, não te inquietes. O silêncio também trabalha. Ele apenas afina as cordas invisíveis da alma.

Continua, portanto, cantando.

Que tua voz siga atravessando feiras, praças e noites sertanejas como um vento antigo — desses que não derrubam árvores, mas fazem as folhas conversarem.

E que cada estrofe tua lembre aos homens que a inteligência pode dançar, e que a poesia, quando nasce livre, sempre encontra o caminho do coração.

Com alegria e reverência,

Mawlānā Jalāl ad-Dīn Muhammad Rūmī
Concebida por Palmarí H. de Lucena

Jalāl ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207–1273) foi um poeta e mestre sufi da tradição persa que viveu em Konya, na Anatólia. Seus versos, atravessados pelo tema do amor como força espiritual universal, transformaram a poesia em caminho de contemplação e continuam a ecoar através dos séculos.