Alagoa Grande, terra de raízes profundas,
agosto de um tempo que nunca morre
Querido José Avelar,
Recebo, no vento que sopra sobre os canaviais, a notícia de teu novo livro — um retrato da nossa Alagoa Grande que se estende do século XVII até o hoje. A ti escrevo, como quem conversa com um amigo de infância, com o coração banhado por uma mistura de orgulho e memória.
Tu sabes, José, que cada rua de nossa terra guarda histórias de luta e resistência. O Teatro Santa Ignêz, o povo da Caiana dos Criolos, as feiras, os casarões de cal e pedra, tudo fala de um povo que não se curva. É essa mesma terra que me viu criança, correndo descalça pelo chão quente, e que me fez mulher no enfrentamento das injustiças do campo.
Teu livro é mais do que papel e tinta — é um chamado para que a memória não seja esquecida. Assim como lutei para que nossos trabalhadores tivessem direitos, tu lutas para que nossa história tenha voz. A história que tu escreves é um espelho onde vejo refletido o rosto de Jackson do Pandeiro, o riso e a resistência de nossas mulheres, o sangue que não se cala das mãos calejadas que plantam e colhem.
Sinto que tua obra é também uma forma de justiça. Porque um povo sem memória é como um campo sem água: perde a vida, seca. E tu, ao contar cada página de Alagoa Grande, dás de beber às novas gerações a seiva de nossas raízes.
Te desejo coragem sempre, José. A coragem de continuar escrevendo mesmo quando o silêncio parece mais fácil. A coragem de recordar até o que dói, porque é na dor que se encontra o sentido da luta.
E, como eu disse um dia diante da multidão, repito agora para ti: “É melhor morrer na luta do que morrer de fome.” E tu, com tua caneta, também lutas — contra o esquecimento, contra a indiferença.
Recebe, pois, minha admiração eterna,
com o abraço de uma filha da mesma terra,
Margarida Maria Alves
Concebida por Palmarí H. de Lucena