João Pessoa, entre a última estrela e o primeiro ruído da manhã
Meu caro Políbio,
Escrevo-lhe como quem ainda ocupa uma mesa de bar, mesmo depois de a noite ter ido embora. Há cartas que não pertencem ao tempo — pertencem à insistência. Esta é uma delas.
Tenho pensado na poesia — essa coisa que nos toma sem pedir licença — e em como ela se manifesta em mim e em você, tão diferentes e tão próximos. A minha, você bem sabe, nasce do susto, do improviso, do gole apressado e da palavra que escapa antes de ser pensada. Nunca tive muita paciência para lapidar verso; sempre preferi lançá-lo ao mundo como quem atira uma garrafa ao mar.
Dizia, por exemplo:
“Se minha mãe se abruma,
se o mar geme,
se os mortos não voltam mais…”
E quando me perguntavam o que era esse “se abruma”, eu não explicava. Porque há palavras que não querem explicação — querem reconhecimento. Minha poesia sempre foi isso: um gesto imediato contra o silêncio.
A sua, Políbio, segue outro caminho — mais fundo, mais cortante. Você escreve como quem conhece o peso das coisas antes mesmo de nomeá-las. Sua poesia não nasce apenas da noite, mas da experiência dura, do contato com o que o mundo tem de mais áspero.
Imagino seus versos assim:
“Os homens carregam a noite nos ombros
e a cidade apodrece dentro deles.”
Ou ainda:
“No mangue, a infância não brinca —
aprende cedo o peso da lama.”
Veja como sua palavra não foge — ela encara. Onde a minha tropeça e ri, a sua permanece e denuncia. Mas não se engane: estamos do mesmo lado.
Há entre nós uma afinidade que não depende de estilo, mas de postura. Nem você nem eu aceitamos dourar a miséria ou suavizar a dor. Escrevemos porque não sabemos calar — e porque calar, em certos casos, é concordar.
Você quer ser lido em vida. E faz muito bem. O poeta não pode depender apenas da memória dos outros; precisa do eco enquanto respira. Eu, que vivi de voz e presença, sei o quanto isso importa.
No fim das contas, Políbio, a poesia talvez seja apenas isso:
uma forma de permanecer quando tudo insiste em passar.
Se algum dia a dúvida lhe bater à porta — e ela sempre bate —, volte àquilo que lhe feriu primeiro. É de lá que vêm os versos que resistem.
Despeço-me sem pressa, porque certas conversas não terminam — apenas se espalham.
Do amigo que ainda discute com o vento,
Mané Caixa d’Água
Concebida por Palmarí H. de Lucena