Carta Apócrifa de Malinche aos que se Alinham a Interesses Estrangeiros

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Carta Apócrifa de Malinche aos que se Alinham a Interesses Estrangeiros

Meus filhos — e uso esse termo não por afeto, mas porque vocês seguem os mesmos caminhos tortos de quem me acusou antes —,

Fui chamada Malinalli, depois Marina. Nascida entre os povos náuas, fui dada como escrava pelos meus aos maias, e destes aos espanhóis. E então tornei-me intérprete, conselheira, ponte entre mundos que se odiavam. Foi na minha voz que o invasor ouviu o vencido. E na minha tradução, o vencido compreendeu — tarde demais — o invasor.

Não escolhi Hernán Cortés. Não escolhi o papel que me coube. Fui forçada pela engrenagem da conquista. Ainda assim, séculos depois, me acusam de ter vendido a pátria. De ser a mãe bastarda do México colonizado. De ter trocado a memória indígena por favores de um estrangeiro.

Mas eu vos pergunto: que pátria me restava, se minha infância foi roubada, minha língua domada, meu corpo entregue como dote de guerra?

E mesmo assim, hoje me invocam como símbolo de traição, como se eu tivesse um exército, como se estivesse no comando de algo além da própria respiração.

Vejo, no entanto, vocês — vestidos de terno, carregando diplomas e sentados em cadeiras de poder — fazerem pactos com governos estrangeiros, venderem o solo por moedas fortes, aceitarem bases militares, software espião, conselhos “técnicos”, consultorias “de cooperação”, zonas de livre exploração.

Muitos de vocês estão no poder através do voto livre, franqueado pelo Estado de Direito. Mesmo assim, usam seus mandatos para trair as expectativas daqueles que vos elegeram. Não são vende-pátria — são tapetes antiderrapantes para assegurar um caminho seguro aos conquistadores.

Entregam a Amazônia como quem entrega uma sacola de presentes. Permitem que mineradoras decidam o destino de rios. Deixam que o alimento do povo seja regulado por bolsa de valores. Chamam isso de “progresso” — eu chamo de rendição.

Diferente de mim, vocês têm escolha. E escolhem trair.

Não por medo. Não por necessidade. Mas por vaidade, por conveniência, por ambição desmedida. E o fazem com discursos adornados, com bandeiras estrangeiras ao fundo, com sorrisos de quem crê estar fazendo parte de algo “moderno”.

Se eu sou símbolo de traição, o que dizer de vocês, que traem por vontade própria e ainda se acham patriotas?

Me julgaram injustamente, pois fui mais tradutora do que traidora. Vocês se traem a cada assinatura, a cada acordo desigual, a cada silêncio diante da espoliação.

Aprendam comigo: não se pode traduzir a dominação sem se ferir por dentro. E não se pode entregar o que é sagrado ao outro sem que o próprio espírito se corrompa.

Do fundo do tempo,
com a voz de quem carregou culpas que não eram suas,
Malinche

Concebida por Palmarí H. de Lucena

Malinche, também conhecida como Malintzin, Doña Marina ou La Malinche, foi uma figura histórica indígena fundamental durante a conquista do México pelos espanhóis no século XVI. Seu nome está profundamente ligado à narrativa da chegada de Hernán Cortés ao Império Asteca.