Meus filhos de São João,
Escrevo com o peito cheio de saudade boa e os olhos voltados pro terreiro onde, um dia, a sanfona encontrou o coração do povo e o fez dançar. Vejo com alegria que o forró ainda vive, que o baião ainda pulsa, e que, mesmo nos tempos das redes e dos sons digitais, ainda tem gente querendo manter o arrasta-pé de pé.
Mas peço licença pra dizer umas palavras com o respeito de quem já viu muito chão batido virar palco e muita zabumba calar diante da pressa.
Tenho notado, de longe, que o nosso São João tem andado bonito — até demais. Quadrilhas com mais brilho que céu estrelado, figurino que lembra Paris mais do que Caruaru, coreografias ensaiadas com a precisão de um balé e trios tocando sons que mal reconhecem a alma do sertão.
Não me entendam mal: não sou contra a beleza nem contra a mudança. Mas fico com a pulga atrás da orelha quando a festa começa a parecer mais um desfile do que um encontro. Porque quadrilha, meus filhos, é onde o menino tímido pega pela primeira vez na mão da menina. É onde o marcador canta a história do povo entre uma “olha a cobra!” e um “é mentira!” — e o povo responde com riso.
O que dizer da música, então? É tanto botão, tanta máquina, tanto grave programado, que às vezes a sanfona parece envergonhada, a zabumba esquecida, o triângulo calado. O baião, quando nasceu, não precisava de artifício: só de chão, suor e sentimento. Era poesia em forma de compasso, era o som da roça virando sonho.
Tenho escutado também que, em nome do “progresso” e da ânsia por votos fáceis, alguns prefeitos transformaram o São João num espetáculo de pão e circo — um banquete de luzes e megashows sem tempero da terra. Trazem artistas de fora, ritmos sem vínculo com o xote ou o baião, e anunciam atrações como se fossem cardápios de eleição, esquecendo que a verdadeira festa junina não se compra: se vive. E como se não bastasse, as primeiras-damas posam para selfies com seus ídolos do momento, sorrindo ao lado de estrelas do sertanejo e forrozeiros de nomes estrangeirados, como se estivessem diante de heróis populares — quando, na verdade, estão apenas ajudando a esvaziar o que temos de mais autêntico.
É triste ver o milho ser substituído pelo camarote open bar, o arrasta-pé trocado por batidas que não conversam com o coração do sertão. O forró vira pano de fundo e a alma da festa é vendida a quem paga mais, como se a cultura fosse mercadoria. Não sou contra o novo, repito, mas tudo tem que vir com respeito ao velho. Que festa é essa que esquece o motivo, que silencia a sanfona pra agradar algoritmos?
Por isso, escrevo não pra criticar, mas pra lembrar. Que forró sem raiz vira espuma. Que quadrilha sem alma vira show sem história. Que a cultura do nosso povo é mais valiosa do que qualquer curtida, qualquer premiação. E que o artista que honra o Nordeste não precisa de disfarce: basta tocar com verdade.
Sigam criando, sim. Sigam ousando, sim. Mas não deixem pra trás o cheiro de milho, o som da chinela no chão, o riso tímido do par que se forma. Lembrem que a grandeza do forró está em fazer o povo dançar — não em impressionar jurados.
Se cuidarem disso, a sanfona continuará dizendo o que as palavras não alcançam. E o São João continuará sendo o que sempre foi: um abraço coletivo entre música, memória e esperança.
Com respeito e um chiado de vinil, Luiz Gonzaga O Rei do Baião — e eterno servo da Asa Branca
Concebida por Palmarí H. de Lucena