Lisboa, 10 de junho do Ano de Nosso Senhor de 2024
Ilustre Doutor Milton Marques Júnior,
imortal das Letras Paraibanas,
Sinto-me impelido a escrever-lhe nesta data que a memória consagrou — não por vaidade, pois dela fui sempre avesso, mas por gratidão e espanto. Gratidão pelo zelo com que me evocais em vosso artigo recente; espanto pela acuidade de vossa pena, que entrelaça erudição e afeição com rara mestria.
Passaram-se quinhentos anos desde meu nascimento — um marco de poeira e silêncio em muitas plagas — e, no entanto, em vossa pena, reencontrei-me inteiro: homem, mito, contradição. Reconhecestes que fui mais que poeta de naus e mares: fui soldado exaurido, amante inquieto, andarilho dos trópicos e das dores. Não ignorastes minha boêmia nem a miséria que me roubou os últimos dias — mas dela fizestes matéria de grandeza, e vos louvo por isso.
Com justeza, dissestes que meus sonetos são fogo que arde sem se ver, e que o decassílabo que manejava em Os Lusíadas foi espada e bússola da língua. Dissestes mais: que com Vasco, Viriato e o Velho do Restelo, tracei um mapa de Portugal em verso, onde o passado sonha o futuro — e o futuro, às vezes, se ausenta do presente.
Com argúcia de filólogo e sensibilidade de poeta, destacastes o domínio metálico dos meus sonetos, ressaltando a precisão formal e a força do fecho de ouro, esse golpe de engenho final. Comparastes meu labor ao Leito de Procusto — esse molde impiedoso em que se cortam ou esticam versos — e afirmastes, com generosidade, que jamais precisei deformar o tema para ajustá-lo aos 14 versos. Confesso que, se o consegui, foi por amar a forma com o mesmo fervor com que amei o mundo.
E ao lembrar de dois dos meus filhos mais lidos — “Amor é fogo que arde sem se ver…” e “Busque Amor novas artes, novo engenho…” — chamando-os de verdadeiras genialidades da lírica camoniana, destes voz ao que me consola em minha condição de ausente: saber que, em vossos olhos, ainda cintilam as palavras que escrevi à beira do Tejo, em Alcácer, ou no exílio de Goa.
Sobre Os Lusíadas, vosso juízo não poderia ser mais claro: dissestes que é o maior poema da língua portuguesa, não só por sua matéria, mas pela forma — pois nele se consagrou o decassílabo heroico e se selou a ruptura com o velho galego, consolidando a língua em que vos escrevo com toda a sua modernidade e potência. Essas palavras vossas ecoam como música em minha eternidade.
Vossa pergunta — “E no Brasil, para Camões, nada?” — calou fundo. Pois é no Brasil que meu idioma pulsa com espantosa vitalidade, mas onde, não raro, meu nome vagueia como sombra em praça esquecida. Quem sabe, em vosso lamento, ecoa o grito do Velho do Restelo, temendo que o mar leve mais do que traz?
Entretanto, em vós vejo esperança. Vosso texto não é só homenagem: é convocação. Despertai, dizeis, aos que se dizem herdeiros de minha pena, mas esquecem que língua não vive de arquivos, senão de leitura, paixão e luta. Se vos escutarem, talvez ainda haja manhã para mim nas terras do Sol do Equador.
E se não houver, bastar-me-á saber que um professor de João Pessoa — terra onde nunca pus os pés, mas onde minha língua criou asas — ergueu-me de novo ao alto das letras, como quem reacende um astro no céu do tempo.
Com estima, vosso,
Luís Vaz de Camões
Concebido por Palmarí H. de Lucena