Carta Apócrifa de Leão XIII aos Trabalhadores por Aplicativo

Carta Apócrifa de Leão XIII aos Trabalhadores por Aplicativo

Filhos e filhas do labor digital,

Saúdo-vos com a angústia de quem vê, mais uma vez, o suor do povo ser explorado sob o disfarce da inovação. Vós, que acelerais pelas avenidas e entregais com precisão, sois apresentados ao mundo como “empreendedores de si mesmos” — uma folha de figueira moderna, usada para ocultar a nudez da vossa condição real: jornadas extenuantes, ausência de garantias e riscos pessoais inaceitáveis.

Chamam-vos empresários, mas o único capital que possuís são vossos corpos, vossos telefones e a esperança de voltar sãos para casa. Vos vendem liberdade, mas cobram com algoritmos implacáveis, metas inalcançáveis e punições silenciosas.

Sob vossas rodas e mochilas digitais, esconde-se uma nova divisão social do trabalho: as plataformas acumulam lucros, os investidores celebram dividendos, mas é o trabalhador quem carrega, na garupa, o gerente, o dono e a empresa inteira — e, por vezes, nem mesmo o combustível lhe é assegurado.

Mais grave ainda é o silêncio das leis, a omissão dos códigos e a morosidade dos legisladores. Em muitos países, inclusive no vosso, vossa condição sequer é reconhecida em sua plenitude. A legislação vacila, hesita, ou simplesmente se cala, permitindo que o mais forte explore o mais frágil sem amparo nem regulação. O Direito do Trabalho, que um dia nasceu para proteger os desvalidos, assiste agora — perplexo ou cúmplice — à criação de uma nova classe de trabalhadores invisíveis.

Recordo, da Rerum Novarum, que “não basta deixar ao livre jogo da concorrência a organização do trabalho”. A justiça exige mais. A justiça exige que o trabalho humanize, e não sufoque.

Apelo, pois, aos poderes de vosso tempo: não se omitam diante de uma nova forma de servidão, digital e polida, mas tão cruel quanto as anteriores. Que não se legisle para os algoritmos, mas para os seres humanos.

E a vós, entregadores e motoristas, diaristas de plataformas, digo com fé: não vos resignais ao individualismo forçado que vos impõem. Uni-vos, organizai-vos, reivindicai — com sabedoria e firmeza. Pois onde dois ou mais se unem por justiça, ali está o princípio de toda transformação.

Com esperança cristã e indignação justa,

+Leão XIII
Bispo de Roma
Pela dignidade do trabalho humano

Concebida por Palmarí H. de Lucena