Meu caro Graziano,
escrevo-lhe de um tempo em que a palavra fome ainda era tratada como destino e não como problema político. Um tempo em que muitos a aceitavam como fatalidade tropical e poucos ousavam enxergá-la como o que sempre foi: resultado de escolhas e omissões humanas. Não me surpreende que sua geração tenha insistido em chamá-la pelo nome correto — injustiça — e tentado enfrentá-la não com discursos, mas com programas, planilhas e pactos.
Quando escrevi Geografia da Fome, quis mostrar que o Brasil não era faminto por ausência de terra, mas por má distribuição de comida, renda e poder. Disse, e repito agora a você: a fome não nasce no estômago, nasce nos mapas políticos. Ela é filha ilegítima do esquecimento, da concentração e da indiferença organizada.
Soube que você decidiu disputar a fome no território mais difícil: o da máquina pública. Não invejo sua tarefa. Conheço esse labirinto de interesses, burocracias e desconfianças. É ali que as ideias mais belas costumam morrer de asfixia. Por isso admiro sua obstinação em transformar a compaixão em política de Estado — porque a caridade consola, mas é a política que muda estruturas.
O programa que você ajudou a construir me parece ter sido mais que um projeto social: foi uma declaração ética. Dizer ao país que ninguém deveria aceitar que o vizinho coma pior do que o cão doméstico não é populismo; é civilização mínima. Alimentar é um verbo fundador. Quem dá de comer ensina a vida a continuar.
Agora sei também que você decidiu não deixar essa travessia apenas na memória de governos. Ao criar e fortalecer o Instituto Fome Zero, você deu forma permanente a uma ideia que não pode depender do humor dos mandatos nem da fragilidade dos calendários políticos. Instituições como essa são arquivos vivos da dignidade: existem para lembrar que os pratos vazios não são estatística, mas urgência; que a fome não é passado, é ameaça constante; e que políticas públicas precisam de guardiões quando os governos mudam.
O Instituto cumpre uma missão que me comove: transformar experiência em conhecimento, e conhecimento em ação. É mais que um centro de memória; é um farol ético. Ao reunir pesquisa, formação e cooperação internacional, ele recusa o esquecimento como política e transforma o saber em instrumento de justiça.
Não se iluda, meu amigo: sempre dirão que fome é exagero retórico, que estatística é ideologia, que prato vazio é discurso. Sempre tentarão transformar a desnutrição em questão de caráter, e não de política. Dirão que o pobre come mal porque quer, que a criança nasce fraca por acaso, que o faminto é preguiçoso. A fome tem muitos advogados. Eles vestem gravata, assinam editoriais e chamam crueldade de realismo.
Resista. A ciência está ao seu lado — e a história também. Nenhum país se tornou grande deixando seu povo pequeno. Nenhuma nação prosperou alimentando privilégios e desnutrindo crianças. A economia que não aprende a alimentar termina, mais cedo ou mais tarde, por devorar a si mesma.
Quero lhe dizer algo que não escrevi nos livros: lutar contra a fome cansa. Cansa o corpo, a paciência e a esperança. Há dias em que o mundo parece uma fila infinita de pratos vazios. Mas lembre-se: cada mesa posta é uma vitória silenciosa contra séculos de descaso. O progresso real não faz barulho: ele mastiga em silêncio.
Se um dia lhe disserem que combatê-la é caro demais, responda com delicadeza e firmeza: caro é não a combater. O custo da fome é sempre maior que o custo da comida. Ele aparece nos hospitais, nas prisões, nas estatísticas da violência, nos desertos humanos que se formam nas cidades.
Não lhe envio bênção; envio confiança. Que você conserve a indignação sem perder a ternura. Que negocie sem vender o essencial. Que nunca deixe que o pragmatismo sufoque a compaixão. E que o Instituto que você ajudou a erguer continue sendo lembrado não como arquivo de governo, mas como consciência ativa de um país.
E quando o cansaço vier, lembre-se deste velho médico pernambucano que insistiu: fome não é fenômeno natural — é um escândalo fabricado. E escândalos não se aceitam; enfrentam-se.
Receba meu abraço cheio de migalhas de esperança,
Josué de Castro
(de um Brasil que ainda está aprendendo a se alimentar)
Concebida por Palmarí H. de Lucena