Carta Apócrifa de José Mindlin aos Estudantes de Biblioteconomia na Era Digital

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Carta Apócrifa de José Mindlin aos Estudantes de Biblioteconomia na Era Digital

A vocês, que se dedicam à arte silenciosa e luminosa das bibliotecas,

Escrevo-lhes do lugar onde a memória repousa, mas não adormece: um recanto iluminado por lâmpadas antigas, onde o cheiro de papel e o rumor das páginas ainda me fazem companhia. Aprendi, ao longo de quase um século, que uma biblioteca é menos um edifício e mais um organismo: respira, cresce, inquieta-se, e, sobretudo, forma vínculos. Por isso me dirijo a vocês — porque são agora os herdeiros dessa respiração.

Quando comecei a reunir livros, ainda menino, não imaginava que eles me conduziriam por tantos mundos. Eu apenas os queria por perto, como quem recolhe pequenos lampejos de sentido no meio da névoa. Hoje, ao observar este tempo em que vivem — um tempo em que o livro, sem perder sua alma, assume novos corpos — percebo que aquela intuição infantil era, em certo modo, uma promessa: toda forma de guardar conhecimento é também uma forma de guardarmos a nós mesmos.

A vocês, estudantes de Biblioteconomia, cabe a delicada e permanente tarefa de cuidar desses lugares onde o conhecimento repousa antes de voltar a caminhar. Se o papel era meu território natural, a vocês cabe explorar também o reino imaterial das nuvens, dos metadados, dos sistemas que catalogam o invisível. Não os temam. A novidade sempre visitou a humanidade; o que distingue a ousadia da imprudência é apenas a qualidade do olhar.

Mas vejam bem: nenhum avanço técnico substituirá aquilo que só o espírito humano oferece — discernimento, hospitalidade, generosidade intelectual. A máquina encontra informações; vocês encontram caminhos. Um catálogo organiza títulos; vocês organizam destinos. Sempre acreditei que uma biblioteca deveria ser um gesto de abertura, nunca de clausura. E, no entanto, não é o acervo que oferece essa abertura — são as pessoas que o habitam.

Permitam-me uma confissão: nunca vi minha biblioteca como coleção. Seria um engano tomá-la como tal. Ela era, para mim, uma conversa prolongada com autores que viveram antes de nós e continuarão a viver depois. Um diálogo silencioso, porém cheio de presença. Se lhes digo isso é porque vocês terão a incumbência de manter semelhantes diálogos vivos — não apenas com os livros, mas com aqueles que os procuram. Um bibliotecário é, antes de tudo, um anfitrião do pensamento.

A era digital traz facilidades que eu teria acolhido com entusiasmo: a possibilidade de ampliar o alcance da leitura, de reduzir fronteiras, de democratizar o acesso. Mas ela traz também uma tentação: a velocidade que atropela a atenção. Não se esqueçam de lembrar ao mundo, sempre que possível, que o conhecimento amadurece em ritmo próprio. E que, apesar de todos os atalhos, há uma arte de ler que não pode ser apressada — a arte de estar presente.

Se posso lhes deixar um desejo, é este: que tratem cada biblioteca, física ou virtual, como um território de encontros. Que façam dela um espaço onde cada leitor, independente de época, condição ou destino, encontre um fragmento de si mesmo. E que a beleza de seu ofício esteja não apenas em preservar o passado, mas em preparar o futuro — um futuro em que a cultura continue sendo um bem comum, aberto como uma porta generosa.

Agradeço-lhes, desde já, por manterem acesa a chama que me guiou por toda a vida. Confiem nos livros, mas confiem ainda mais na alegria de compartilhá-los.

Com o carinho de quem viveu entre estantes e nelas encontrou o mundo,

José Mindlin

Concebida por Palmarí H. de Lucena