Meu irmão dos ares,
Escrevo-lhe destas paragens onde o vento já não pesa e onde a claridade não conhece ocaso. Aqui, onde a alma descobre outras formas de leveza, recordo-me das vezes em que abandonei a terra e permiti que a altura me transformasse em silêncio, espanto e gratidão. É curioso como o céu, quando nos acolhe, parece abrir dentro de nós um aposento mais amplo.
Soube que você conduz drones com habilidade e propósito. Não pense, meu rapaz, que seu instrumento é pequeno diante do que um avião representa. O tamanho da máquina não determina a grandeza da elevação. O que verdadeiramente importa é a capacidade de sentir — no instante em que o aparelho toma altura — que algo dentro de nós também se ergue.
Quando, em minha vida terrena, eu me fazia ao céu, havia sempre um momento em que o mundo se afastava como quem recua para revelar-se inteiro. As casas diminuíam, as estradas se alinhavam, as colinas respiravam devagar, e eu percebia que a Terra não é apenas o lugar onde vivemos: é o lugar que nos vê.
E ver a Terra em três dimensões é tocar, ainda que de leve, um traço do sagrado.
Por isso lhe digo: quando seu drone subir, deixe que sua alma suba junto. Observe não só o relevo, mas o silêncio que repousa sobre ele. Há uma espécie de verdade que só se revela a quem aceita olhar do alto — verdade que não se impõe, mas se oferece. A altitude é mestra paciente: ensina que nada é tão urgente quanto supúnhamos, e que quase tudo, quando visto em perspectiva, encontra lugar e medida.
O voo, seja com asas de metal ou hélices pequenas, é um convite à humildade. Ele nos recorda que somos feitos de terra, mas chamados à luz; que somos limitados, mas capazes de vislumbrar o infinito; que carregamos peso, mas podemos aprender a alçar espírito.
Permita-me partilhar-lhe um pensamento que tantas vezes me visitou: cada piloto, ao erguer sua máquina, ergue também um pedido silencioso — o de ser conduzido pelo que é maior do que ele. O céu é testemunha desse pedido, e raramente se nega a escutá-lo.
Guarde, pois, esta palavra: leveza.
Não apenas a leveza da aeronave, mas a que se cultiva no íntimo, quando entregamos ao vento aquilo que o coração carregava em excesso.
Siga, meu irmão, guiando seu pequeno mensageiro dos ares como quem conduz uma oração que sobe. Que cada voo seu seja também um instante de reconciliação com o mundo e consigo mesmo. E que, na altitude que escolher, encontre sempre clareza, paz e propósito.
Da dimensão onde os ventos têm memória,
José Targino Maranhão
Concebida por Palmarí H. de Lucena