Carta Apócrifa de Johannes Gutenberg a Magno Nicolau, Editor da Ideia Editora, dedicada ao apoio, disseminação e propagação da cultura regional

Carta Apócrifa de Johannes Gutenberg a Magno Nicolau, Editor da Ideia Editora, dedicada ao apoio, disseminação e propagação da cultura regional

Mainz, século XV – ou em qualquer tempo em que a palavra busca se multiplicar

Senhor Editor,

Ainda que o tempo me tenha situado entre metais, tintas e tipos móveis, a minha obra nunca pretendeu deter-se apenas na mecânica de engrenagens. O que busquei foi libertar a palavra do cárcere do pergaminho raro, da pena fatigada e da mão que a copiava lentamente. O livro, antes restrito a mosteiros e palácios, deveria pertencer também ao sapateiro, ao ferreiro, ao estudante de aldeia.

Ouço dizer que vossa casa editorial, chamada Ideia, ousa seguir a mesma trilha: democratizar o acesso ao saber, dar asas a pensamentos que, de outro modo, permaneceriam em silêncio. O nome que escolhestes não poderia ser mais justo: porque antes da prensa, antes do papel, antes até da letra, está a centelha invisível – a ideia que move mundos.

Eis, porém, um mérito ainda maior: ao apoiar e difundir a cultura regional, vossa editora preserva a memória dos povos, suas lendas, sua música e suas tradições, impedindo que o tempo as apague como vento que dissipa cinzas. Não é só o livro universal que enriquece o espírito humano; também o livro que guarda o sotaque da terra, o canto do povo, a história dos anônimos.

Sei, pela memória das gerações, que vosso tempo é outro: não mais tintas pesadas nem matrizes de chumbo, mas máquinas digitais, ondas elétricas e redes que atravessam continentes num sopro. Contudo, a missão é idêntica à que um dia me guiou – fazer com que a palavra circule, se multiplique, encontre olhos e mentes sedentas.

Cuidai, porém, de não confundir abundância com profundidade. O excesso de vozes pode gerar confusão, como uma tipografia desordenada em que todas as letras caem da caixa e nada se imprime com clareza. É papel do editor – e vosso papel – escolher, revisar, dar forma e responsabilidade àquilo que será impresso ou lançado no mundo.

Deixo-vos, pois, esta advertência fraterna: cada livro é uma semente, e cada semente pode ser árvore ou erva daninha. Que a Ideia Editora seja jardim de conhecimento, mas sobretudo guardiã das raízes culturais de seu povo.

Com o respeito de quem ousou multiplicar páginas para multiplicar destinos,

Johannes Gutenberg

Concebida por Palmarí H. de Lucena