Carta apócrifa de Joaquim Nabuco ao povo brasileiro

Carta apócrifa de Joaquim Nabuco ao povo brasileiro

(Sobre a bandeira, o patriotismo e a pátria que começa onde termina o estádio)

Brasileiros,

Permiti que vos escreva do silêncio onde repousam aqueles que creram no Brasil antes mesmo que ele soubesse crer em si. Deste lugar onde a consciência não morre e o amor à pátria não envelhece, contemplo com ternura — e certa inquietação — a chama que reacende em vossos corações durante os jogos da Seleção Nacional. O verde e o amarelo voltam a brilhar nas ruas, nos rostos, nas janelas e nos corpos. O hino, tantas vezes ignorado nas escolas, é entoado com lágrimas sinceras. A bandeira, antes esquecida ou maltratada, é erguida com orgulho. E por um breve instante, parece que somos, enfim, uma só nação.

Mas pergunto: por que só então?

Tão logo o apito final ecoa, o que era união se desfaz. A pátria volta ao estado de esquecimento, a bandeira é dobrada às pressas — quando não abandonada ao pó dos cantos — e o patriotismo adormece até a próxima Copa. E então me ocorre dizer, com a franqueza dos que já não temem ser mal interpretados: a pátria não pode viver apenas de gols.

Não me oponho ao júbilo esportivo — antes, celebro-o. O futebol é linguagem popular, e a Seleção carrega em seus ombros os sonhos de um povo que pouco recebe e muito resiste. Mas o verdadeiro amor ao Brasil não se mede pela vibração nas arquibancadas, e sim pelo respeito diário à Constituição, à justiça, à memória, ao próximo e aos símbolos que nos representam.

Chegam-me também rumores de que nossa bandeira tem sido usada não só nos estádios, mas nas fachadas comerciais, palanques de ocasião e vitrines de propaganda, como se fosse logomarca ou ornamento descartável. Tremula ao lado de siglas empresariais, desbotada pelo tempo, rasgada, mal iluminada. Esquecem que ela não é grife, nem slogan. A bandeira é o sudário da esperança, o pacto silencioso entre o que fomos e o que ainda queremos ser.

Seu verde não é o de uma facção, mas o das matas que resistem. Seu amarelo não é o ouro de banqueiros, mas o brilho da justiça que nos falta. Suas estrelas não representam candidatos, mas os estados que sonham com igualdade. E aquela faixa branca — ah, essa sim — é o único arco de paz que deveríamos todos empunhar.

Respeitar a bandeira é respeitar a nós mesmos. É saber que não se pode hasteá-la ao lado de interesses privados como se o Brasil fosse uma subsidiária, nem lançá-la ao sol e à chuva até que se desfaça como trapo qualquer. Cada mastro que a sustenta deveria ser erguido com a mesma seriedade com que se ergue a consciência cívica de um povo.

Patriotismo não é grito — é gesto. Não é ostentação — é reverência. Não se ama o Brasil usando-o como biombo para a ambição ou cortina para a ignorância. Ama-se o Brasil quando se zela por sua memória, sua diversidade, seus símbolos e seu povo — dentro e fora do estádio.

Que a bandeira que tremula nos campos do futebol também tremule na alma cívica. Que o amor que explode em gols também se converta em compaixão pelos invisíveis, em cobrança por justiça e em coragem para construir um país digno de seu próprio hino.

A pátria verdadeira começa onde termina o estádio.

Com a devoção de quem sonhou uma nação livre, justa e respeitável,

Joaquim Nabuco
(em algum lugar onde a consciência não se cala e a esperança não se aposenta)

Concebida por Palmarí H. de Lucena