São João querido,
Escrevo-lhes da eternidade serena, onde os clarins tocam suave e as almas dançam como folhas no vento da memória. Escrevo, não com tinta, mas com a lembrança dos que fizeram deste chão um templo de cultura, fé e fraternidade.
Fui tenente músico, sim. Mas antes disso, fui vosso — de vossas festas, vossas marchas, vossas alvoradas. Entre pólvora de 24 de junho e fogueiras que ardiam como corações em festa, testemunhei o nascimento de uma das maiores alegrias deste povo: a Filarmônica Honório Maciel.
Fundada em 1926 por homens de coragem e som, ela é mais que uma banda: é o próprio povo que canta com instrumentos. É o eco do Sabugi transformado em música. Sua sede, construída por minhas mãos e pelas mãos de tantos, em 1934, não foi só um edifício de tijolos — foi um gesto de fé na arte como ponte entre gerações.
E quando ela toca a valsa “Royal Cinema”, composta pelo mestre Tonheca Dantas, o tempo parece suspenso. É como se o Seridó ganhasse vestes de gala, e nossos olhos vissem, por instantes, o passado vestido de sonho. Não há concerto mais digno da alma sabugiense do que essa melodia que mistura requinte e chão, Europa e sertão.
Mas mais do que seu repertório, o que torna a Filarmônica eterna é o pertencimento. Ela não é de maestro algum, nem do poder que passa. Ela é do povo. Vive no menino que aprende trompete na praça, no velho que chora ao escutar um dobrado, na moça que dança sorrindo sob os arcos da Igreja Matriz.
A Filarmônica é nossa língua sem palavras, nossa fé sem altar, nossa resistência sem armas. E quando um filho do Sabugi se emociona com o som da sua terra, ele entende — sem que ninguém lhe explique — o que é raiz.
Por isso, digo-vos: cuidem da banda como se cuida de uma fonte que não pode secar. Que o uniforme dos músicos jamais falte, que seus ensaios nunca silenciem, que o povo nunca deixe de dizer: “a banda é nossa”.
Celebrem São João, sim, com fogos e forró. Mas celebrem também com a valsa, com a marcha, com o toque que une gerações como um fio invisível feito de notas, gestos e orgulho.
E se do alto quisesse apontar um lugar onde a alma do Sabugi se revela inteira, seria a Serra do Mulungu.
No alto do seu cume, de onde se avista o Seridó em contornos quase eternos, uma cruz de madeira se impõe como farol da fé sertaneja. Já é a terceira cruz erguida ali, sucedendo outras que se fincaram no início do século XX, feitas por promessas de cura, gratidão ou milagres silenciosos. Não são apenas vigas: são testemunhas de uma espiritualidade profunda, moldada na pedra e no tempo.
A Serra do Mulungu é considerada sagrada. Há nela um silêncio que canta, um vento que ora, uma pedra que se lembra. É palco de peregrinações, missas campais, promessas pagas a pé descalço e cerimônias transmitidas de geração em geração. É mais do que elevação geológica — é altar natural, onde o povo de São João do Sabugi reconhece a si mesmo, entre o pó da estrada e a luz das estrelas. Um lugar onde fé e natureza se abraçam, como se o céu tivesse decidido pousar sobre o Seridó por alguns instantes.
Eu sigo por aqui, na saudade. E onde quer que a Filarmônica Honório Maciel toque, saberão que estou ouvindo — com o coração batendo no compasso da gratidão.
Com fé, amor e som, João Emídio Lucena Tenente do povo, filho adotivo da Serra de Mulungu e guardião da música.
Concebida por Palmarí H. de Lucena, em honra à memória de seu pai.