Caro Rosildo,
Escrevo-lhe como quem encontra, num caderno antigo, uma história que talvez seja lembrança, talvez invenção. Ou talvez as duas coisas, como tantas verdades da vida. Escrevo porque sua história me tocou — ou me escolheu — e porque há silêncios que pedem palavra, mesmo quando ninguém as pede.
Poucos ainda se lembram do Colégio Underwood. Em tempos de pressa e desapego, é raro que alguém carregue na memória uma escola noturna, de ensino técnico, plantada ali na Rua Duque de Caxias, entre a Praça João Pessoa e o ruído dos bondes. Ainda assim, foi naquele prédio sem pompa, de janelas altas e horários apertados, que uma moça chamada Rosália tentou, nos anos cinquenta, reescrever seu destino.
Chamavam a escola de “Vanderude”, com sotaque arranhado, como quem mastiga um francês mal aprendido. Talvez fosse corruptela de rendez-vous, palavra estrangeira que entre nós virou lugar de encontros — e também de pequenas transgressões discretas, aquelas que a moral da época fingia não ver. Ali, entre o Pavilhão do Chá e a Rua Duque de Caxias, moças pobres que passavam o dia inteiro de pé no comércio, muitas vezes se tornavam presas fáceis para os abutres do prazer clandestino.
Rosália vinha do Varjão — hoje Rangel — e vendia tecidos nas Lojas Lobraz, na Beaurepaire-Rohan. Filha de pedreiro e lavadeira, sonhava com o futuro que os simples almejam: estudar para escapar do destino costurado à mão. E foi no Underwood que ela quis aprender a dobrar a vida — como dobrava lençóis e a própria esperança.
Mas o destino, Rosildo, não se dobra com facilidade.
Ela chegava à noite, o corpo pedindo repouso, a alma pedindo futuro. E mesmo com os olhos pesados e a matemática no quadro-negro, insistia. Sabia que não passaria. Faltava-lhe tempo, energia, talvez fé. Até que um gesto inesperado: o professor de Matemática — moço engomado, sorriso breve — passou a notá-la. Primeiro na cantina. Depois, uma conversa na calçada. Por fim, uma carona.
O que ele queria? Rosália nunca soube dizer. Talvez companhia. Talvez distração. Talvez aquilo que alguns chamam de amor, mesmo quando não é.
Ela aceitou.
A carona virou hábito. O hábito, enredo. O enredo, silêncio. E o silêncio, ventre.
Vieram as náuseas. O susto. A certeza.
Antes mesmo que o ano letivo terminasse, o professor evaporou. Mudou-se para Recife — disse o diretor — sem bilhete, sem despedida, sem endereço. Rosália engoliu a notícia como quem engole um caroço de goiaba: sabendo que um dia aquilo voltaria a doer.
Teve o filho sozinha. Batizou-o de Rosildo — nome que era metade dela, metade mistério. Criou-o com o salário de vendedora e a dignidade de quem não se envergonha da luta. Sem lamentos, sem teatro, sem escândalo. Apenas vida.
Você cresceu.
Estudou na Escola Industrial. Aprendeu a montar letras como quem monta máquinas. Subiu de linotipista a editor de caderno cultural. Ganhou nome, rosto, presença. Tornou-se público. Visível.
E foi então que o passado lhe tocou o ombro.
Veio em forma de senhora distinta, de Recife, olhos úmidos, fala contida. Queria encontrá-lo. Não por causa de uma reportagem, mas por algo mais fundo. Disse que era casada com um engenheiro — bom homem, mas infeliz por não poder ser pai. Numa noite de angústia, ele lhe contou um segredo guardado por quase duas décadas: fora professor do Underwood. Envolvera-se com uma aluna pobre. E fugira.
Ela procurou. Achou Rosália. Descobriu você. E veio com uma proposta torta de afeto: “Quero dar ao meu marido o filho que ele nunca teve. Deixe-me entregá-lo de volta.”
Imagino o silêncio que se fez dentro de você, Rosildo.
Você, que crescera acreditando que seu pai morrera antes mesmo de nascer, descobria que ele existia — e que escolhera não estar.
Foi então, talvez, que a frase de Mia Couto encontrou morada em sua carne:
“Há ausências que ocupam mais espaço do que presenças.”
Não sei o que você respondeu. Nem é preciso. O que importa é o que essa história lhe roubou: o direito à origem clara, ao nome inteiro, ao afeto sem enredos. Mas também o que lhe ofereceu: a rara possibilidade de ser autor de si mesmo.
Você soube fazer da ausência matéria de escrita. E da dor, coragem. Não por heroísmo — mas por dignidade.
Rosildo, filho do Underwood, de Rosália e do silêncio. Mas também filho da sua própria reinvenção.
Essa história, Rosildo, é mais do que pessoal. É espelho de uma geração de moças que, como Rosália, ousaram estudar à noite em tempos de sombras. Sonhavam, entre cadernos e cansaços, com uma vida que não fosse apenas sobrevivência. Enfrentavam o preconceito, o assédio, a solidão. E ainda assim resistiam, iluminando com sua coragem os becos escuros de uma cidade que mal lhes dava nome.
A elas devemos mais do que lembrança. Devemos respeito. Devemos voz.
Assina,
Um escritor que ouviu sua história no vento — e decidiu que ela não merecia morrer calada.
Concebida por Palmarí H. de Lucena, inspirado no conto “Underwood”, de João Batista de Brito