Carta apócrifa de Janek Sýkora, sobrevivente de Lidice, ao povo de Gaza
(Lidice reconstruída, junho de 2025)
Queridos irmãos e irmãs de Gaza,
Escrevo-vos não como historiador nem político. Escrevo como quem viu o céu escurecer de um dia para o outro, como quem ouviu os gritos das mães procurando seus filhos sob escombros, como quem sobreviveu ao desaparecimento de sua aldeia e de seus abraços. Falo-vos da vila de Lidice, que em 1942, na Checoslováquia ocupada pelos nazistas, foi arrasada da face da terra — com seus homens executados, mulheres deportadas, crianças assassinadas ou levadas para longe.
Não vos escrevo para medir dores. A dor verdadeira não se compara, apenas ecoa.
Quando me escondi num celeiro abandonado e ouvi o estalar dos fuzis, pensei que não veria o dia seguinte. Quando voltei, anos depois, ao campo silencioso onde havia crescido, os jardins de tílias e as hortas de maçãs verdes tinham virado cinza. Nada restava senão a memória — e foi com ela que reconstruímos Lidice, pedra por pedra, nome por nome.
Hoje, vejo Gaza. Vejo as filas por pão que terminam em estampido. Vejo a fome espreitada por drones. Vejo corpos caídos sobre sacos de farinha, como se morrer de fome não bastasse. E me lembro de Sarajevo. E me lembro de Babi Yar.
Sim, Sarajevo — outra cidade cercada, onde a fome era tiro certeiro e atravessar a rua com pão na mão exigia a coragem de um mártir. E Babi Yar, o vale silencioso em Kiev, onde dezenas de milhares de judeus — homens, mulheres, velhos, crianças — foram levados aos pares, obrigados a tirar as roupas, e executados a sangue frio. Dois dias bastaram para fazer daquele barranco uma cova sem nome. Não havia guerra ali — só ódio e método.
Hoje, Gaza me lembra isso tudo: o vale, o cerco, a bala disparada contra quem carrega água ou farinha. Os que miram civis em busca de comida sabem o que fazem — e isso é o mais horrível. Não é erro. É doutrina. É punição exemplar, como fizeram conosco em Lidice. Como em Babi Yar, onde a terra engoliu a prova e o silêncio era imposto a tiro e medo.
Mas escrevo-vos para lembrar que o silêncio imposto não é eterno. A terra fala. Os escombros denunciam. Os olhos das crianças sobreviventes guardam o que o mundo quis esquecer. E essas memórias renascem como justiça futura — mesmo que tardia, mesmo que ferida.
Se Lidice renasceu, foi porque nos recusamos a aceitar o apagamento. Porque outras vozes no mundo nos chamaram pelo nome. Que Gaza também possa renascer. Que vosso nome não seja só sinônimo de luto, mas também de dignidade, de resistência.
Não sei o que restou das bibliotecas em vossas ruas. Mas sei que um menino com um livro nas mãos, mesmo entre ruínas, é mais forte do que mil soldados. Que uma mãe que embala o medo com um canto transforma a noite em esperança.
Guardem suas canções. Guardem suas histórias. Mesmo que lhes tirem tudo, que reste a dignidade de contar a própria narrativa. Nós, os sobreviventes de Lidice, de Sarajevo, de Babi Yar — e de tantos vales da morte — carregamos esse compromisso. E hoje, ele também vos pertence.
Com dor partilhada e esperança teimosa,
Janek Sýkora
(Lidice, 1942 – sobrevivente da memória)