Nova York, 15 de dezembro de 1883
À Senhora Emma Lazarus
Broadway, Manhattan
Senhora Emma,
Peço vênia para escrever-lhe, não como poeta, pois não sou, mas como homem que reconhece, em tua pena, a ressurreição da memória.
Chamo-me Isaac de Lucena, descendente de judeus andaluzes que um dia habitaram a cidade de mesmo nome — Lucena, na velha Sefarad — onde o estudo da Torá iluminava as noites e os nomes eram guardados como relíquias. Os meus, como tantos, deixaram a Espanha sob o aço da perseguição. Refugiaram-se em Amsterdã, depois em Curaçao, e por fim aportaram em Recife, no Brasil holandês, onde por um breve instante floresceu a liberdade.
Lá, sob o governo de Nassau, fundamos escolas, sinagogas e esperança. Mas a espada da Inquisição, que sempre volta, nos alcançou também ali. E foi então, em 1654, que meus ancestrais — vinte e três almas, entre eles alguns Lucena — partiram de Pernambuco para a Nova Amsterdã, então um entreposto remoto e desconfiado. Foram recebidos com frieza, ameaçados de expulsão, e só permaneceram graças ao peso do comércio e ao brilho da resistência silenciosa.
Dessa história viemos nós. Discretos, resilientes, fiéis à memória e ao pacto. E é por isso que tua voz me comove, Emma. Porque em teus versos — “Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres…” — ressoa o mesmo anseio que nos guiou por oceanos e séculos. Tu dás forma ao que tantos apenas ousaram sentir.
Teu poema The New Colossus não é apenas uma ode à imigração: é uma carta de alforria para os exilados da terra. É a alma de Sefarad envolta na túnica da Liberdade. Enquanto muitos se calam ou se escondem sob o verniz da boa sociedade, tu ergueste um farol que nos devolve ao mundo — não como intrusos, mas como sobreviventes.
O colosso que chega à entrada do porto é de cobre e majestade. Mas sua grandeza, creio, repousa agora na pedra viva de tuas palavras. Quando os tempos se tornarem de novo escuros — pois sempre se tornam — que teus versos sejam abrigo e resistência. Que lembrem aos que virão que esta terra não foi feita de muros, mas de passagens.
Recebe, pois, desta alma anônima, velha e emocionada, a bênção que meus pais me ensinaram a ofertar aos justos.
De um filho da diáspora à filha da esperança,
com respeito e reverência,
Isaac de Lucena
neto do exílio, herdeiro da memória
Concebida por Palmarí H de Lucena