Carta Apócrifa de Hermano José ao Multiartista Miguel dos Santos: Sobre a Terra, a Memória e a Permanência

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Carta Apócrifa de Hermano José ao Multiartista Miguel dos Santos: Sobre a Terra, a Memória e a Permanência

Meu caro Miguel,

Escrevo-te de um lugar que já não pertence aos homens, mas que ainda guarda aquilo que fomos. Aqui, onde o tempo se dissolve como aquarela em papel molhado, as imagens persistem com uma nitidez inesperada. E entre elas, surge tua figura — firme, modelando o barro como quem conversa com os ancestrais.

A morte, meu amigo, não silencia o olhar. Apenas o desloca.

Vejo, agora com outra distância, aqueles dias em que nossos caminhos se cruzaram. Tu ainda jovem, trazendo nas mãos a argila viva de Caruaru; eu, já envolto nas minhas paisagens, tentando ensinar o que, no fundo, também buscava aprender. E percebo que, mesmo então, havia entre nós algo que escapava à simples relação de mestre e aprendiz. Era reconhecimento — raro, silencioso, inevitável.

Sempre soube que não te pertencias inteiramente. Havia em ti uma força mais antiga, uma espécie de chamado que vinha da terra, dos mitos, das formas primeiras. Hoje compreendo melhor: eras já atravessado por aquilo que depois se tornaria tua obra — esses seres que habitam entre o humano e o sagrado, entre o barro e o sonho.

Daqui, observo teu percurso como quem contempla uma obra em expansão. Vejo tuas esculturas erguerem-se como totens de memória, teus signos dialogarem com África, com o barroco, com o imaginário profundo do nosso povo. E reconheço ali a continuidade de algo que, em minha geração, ainda era luta: afirmar que nossa arte não precisa pedir licença para existir.

Lembro-me, com certa ternura, das conversas — algumas ditas, outras apenas intuídas — sobre o fazer artístico. Eu, perseguindo a paisagem que escapa; tu, fixando no barro aquilo que resiste. Talvez, sem sabermos, já conversássemos sobre o tempo: eu tentando detê-lo, tu tentando enraizá-lo.

Hoje sei que ambos estávamos certos — e incompletos.

A morte me ensinou algo que a vida apenas insinuava: nada do que criamos nos pertence por inteiro. As obras seguem, ganham outros olhos, outros sentidos. E, no entanto, há nelas uma centelha que permanece ligada àquele instante primeiro — ao gesto inaugural. Em ti, essa centelha ainda arde com força.

E isso me tranquiliza.

Porque vejo que não apenas continuaste — transformaste. Levaste adiante aquilo que partilhávamos como inquietação e fizeste disso linguagem própria, inconfundível. Não és prolongamento de ninguém, Miguel. És origem em movimento.

Se te escrevo agora, é também para dizer que nossa relação não terminou com minha partida. Ela persiste — nas influências que não se nomeiam, nos gestos que se reconhecem, nas ideias que atravessam gerações sem pedir permissão. Está no modo como olhas a matéria, na recusa em superficializar o mundo, na insistência em criar com profundidade.

Há algo que ainda te peço, mesmo deste lado onde já nada se exige: não deixes que o hábito domestique o mistério. Continua a escutar o barro como quem escuta um segredo antigo. Continua a dar forma ao invisível, mesmo quando o mundo te pedir apenas repetição.

Aqui, onde já não há urgência, compreendo que a arte foi nossa maneira de permanecer.

E tu permaneces, Miguel.

Recebe este abraço que já não é de corpo, mas de memória —
e que, ainda assim, te alcança.

Teu amigo de sempre,

Hermano José

Concebida por Palmarí H. de Lucena